Por volta do final do ano de 2020, eu, Gustavo, por algum motivo que não lembro agora, me deparei com um assunto que nunca tinha estudado em profundidade: as curiosas formas geométricas chamadas de tattwas.

No intuito de ter um contato maior com os ouvintes do podcast Desocultados, comecei a organizar uma rotina de práticas que tomaria parte nos meses de fevereiro/março de 2021, e convoquei os ouvintes para participar de nosso Grupo de Estudos de Meditação com Tattwas.

O documento utilizado como base para nossos estudos foi montado por mim e pode ser consultado neste link, no qual também constam as imagens dos 25 formatos de tattwas para meditação: https://drive.google.com/drive/folders/1I2auUeZtGDgvr533zYuYdWdK0e4CmjTJ?usp=sharing

Os resultados de nossa prática vocês irão conferir logo, logo, no próximo episódio do Desocultados. Por ora, deixo aqui, na forma de post, a fim de tornar mais acessível as informações para aqueles que buscam práticas do tipo, mas não conhecem o podcast, o estudo teórico sobre o assunto, juntamente com as instruções de como realizar as meditações.


Conhecimento Preliminar

Devido à prática de meditação dos tattwas envolver contato com outros planos e, possivelmente, outras entidades, as quais, a princípio, não é possível discernir se têm boas intenções para conosco ou não, será necessário o conhecimento de práticas de banimento e autoproteção para utilização antes do início de todos os rituais.

Não faz parte do objetivo deste grupo impor uma prática específica de banimento, cabendo a cada um utilizar aquilo com qual tem experiência e/ou afinidade de acordo com seu paradigma de crenças. Entretanto, a utilização de pelo menos alguma forma de banimento é extremamente recomendada, não só para esta, mas para qualquer operação mágica. Caso opte por não realizar um “expurgo astral” antes das meditações, a responsabilidade por assumir esse risco é individual do praticante.

Para aqueles que não conhecem nenhum tipo de banimento pré-operatório, sugere-se o uso do Ritual de Banimento Menor do Pentagrama, seguido, preferencialmente, pelo Ritual de Banimento Menor do Hexagrama, cujas instruções podem ser encontradas no Liber O vel Manus et Sagittae sub Figura VI, da A∴A∴.

Recomenda-se ainda que, pelo período mínimo de uma semana antes do início das atividades práticas do grupo, os indivíduos empreguem métodos de limpeza de aura, ou limpeza energética diariamente, a fim de manterem-se livres de influências mais superficiais que apenas trariam prejuízo às meditações. Nesse caso, também para aqueles que não conhecem nada do tipo, sugere-se práticas de visualização e meditação sobre os sete chakras, e/ou limpeza áurica por meio de visualização sugestiva.

Após executados os banimentos pré-operatórios, aos praticantes que se sentirem confortáveis com invocações cerimoniais, existe a possibilidade de convocar energias elementais e planetárias de acordo com cada tattwa. Em um dia de tejas, por exemplo, uma invocação de Fogo + Marte [1] pode servir para potencializar a experiência. Existem várias maneiras de se invocar esses aspectos, sendo recomendado, aos mesmos moldes do banimento, o Ritual de Invocação Maior do Pentagrama e o Ritual de Invocação Maior do Hexagrama (vide Liber O vel Manus et Sagittae). Reitera-se que tal prática é meramente facultativa.

Durante o processo de meditação, uma sugestão é sentar-se em asana e utilizar técnicas de respiração baseadas em pranayama. Para os que nunca praticaram algo do tipo, recomenda-se que simplesmente sentem de maneira confortável e respirem de maneira mais completa e profunda possível.

Como um dos objetivos do grupo de estudos é reunir relatos e compará-los, obviamente torna-se necessário um meio de registro não só da prática em si, mas de possíveis sensações e experiências que dela podem “vazar” para seu dia a dia no mundo físico. Aos que já possuem Diário Mágico, não é necessário dar instruções específicas, apenas orientar que incluam as meditações com tattwas no mesmo. Aos que ainda não adotaram tal ferramenta, que sirva de estímulo para tal, ou que, no mínimo, se adote um provisoriamente apenas para fins deste grupo de estudos.

[1] As correlações elementos-planetas ficam claras após a explicação do conceito de cada um dos tattwas, mais adiante neste documento.


Teoria

A primeira menção do termo tattwa, ou tattva, que se tem registro é no trabalho do indiano Kapila, fundador da filosofia Sânquia, por volta de 700 a.C. No entanto, diversas escolas de filosofia oriental tocaram nessa questão, interpretando-a de diferentes formas, mas sem perder a essência de que os tattwas seriam uma espécie de “emanação da divindade primordial”.

Segundo Heller (1926), pode-se sintetizar a visão ocidental dos tattwas definindo-os como “vibrações do éter”,  explicando este último como uma energia invisível por meio e em meio a qual ocorrem todos os fenômenos do Universo.

Ainda assim, o éter seria apenas um efeito, sendo sua causa nomeada pelo termo oriental prana, a força que modela o Universo. Sem prana, não haveria vida, por exemplo, pois ela é a energia absoluta do éter.

No fluxo infinito do Universo, o qual em nossa capacidade de seres limitados ao mundo físico não conseguimos compreender inteiramente, prana deve ser pensada como uma força positiva, enquanto seu aspecto negativo é akash. Prana se modifica até o ponto de se tornar akash, que também se modifica por sua vez, gerando o éter, que se modifica se desintegrando em uma série de tattwas.

Como os tattwas são subdivisões do éter, quando o sol lança seus raios sobre nosso planeta, as partículas de luz acabam atravessando o espaço e coletando esses diferentes tipos de vibrações de uma forma periódica, já que a luz tem frequência fixa de emanação. Calcula-se, então, que, devido a isso, a cada 24 minutos o “tom” do éter muda em nosso planeta. Esses “tons” nada mais são que cinco tattwas:

  1. Akash, o princípio etéreo;
  2. Vayu, o princípio do ar;
  3. Tejas, o princípio do calor e da luz (e/ou fogo);
  4. Apas, o princípio da água e do líquido;
  5. Prithvi, o princípio da terra. [2]

Todo dia, exatamente no nascer do sol, por 24 minutos, o nosso Universo vibra em akash. A ordem decorrente em seguida obedece a disposta cima. [3] Sendo assim, o ciclo dos tattwas recomeça a cada 2 horas.

Porém, esses 5 tattwas mencionados são apenas os mais densos. Segundo a tradição Sânquia, existem, ao todo, 24 tattwas. O Xivaísmo adiciona um novo grupo aos tattwas, fazendo com que seu total seja 36. Segundo esta última filosofia oriental, os 24 tattwas com os quais lida a Sânquia seriam apenas os “impuros”.

Lista de tattwas, conforme o Xivaísmo. Aqueles tomados pela cor verde são os tattwas tratados pela Sânquia. Imagem original: https://i.pinimg.com/originals/1c/31/bf/1c31bfebd6ba9b4489178f87728d193a.gif

Os tattwas também podem ser relacionados aos cinco chakras mais baixos do sistema energético humano (conforme sistema hindu), embora quando levamos em consideração o sistema de chakras tibetano, eles se relacionam exatamente com os cinco centros psíquicos nele mencionados.

Alega-se (HELLER, 1926) que ao dominar os tattwas, o ser humano se torna “senhor de seu próprio destino”, incapaz de sofrer enfermidades, dota-se do poder de descobrir os mais profundos segredos da natureza, torna-se capaz de ler pensamentos e invulnerável a qualquer calamidade, entre outras capacidades extraordinárias.

Porém, o que poderia se definir exatamente como “dominar os tattwas”?

A questão do trabalho prático com tattwas teve seus primórdios com a Ordem Hermética da Aurora Dourada (OHdAD), que considerava cada um desses elementos subplanos do Plano Astral. Alguns afirmam que os cinco tattwas seriam a essência astral dos elementos. Para cada um deles, então, foi dado um símbolo:

Segundo a OHdAD, meditar sobre esses símbolos de forma intensa daria acesso a tais subplanos elementais do astral, também servindo para desenvolver a clarividência do praticante. Obviamente, não se restringe a operação com tattwas a apenas esse tipo de prática, porém, é dela que iremos tratar no presente grupo de estudos.

Outro conceito modificado pela OHdAD foi a da progressão da vibração do éter ao longo do dia. Para explicá-la de forma mais precisa, apresenta-se a seguinte tabela:

Quando o dia começa, em akash, tal tattwa está em sua forma mais pura. Porém, dentro dos 24 minutos, essa forma vai passando por fases onde se mescla com os outros elementos. Portanto, a cada 4 minutos e 48 segundos o fluxo do éter se transforma. Um exemplo dessa ordem seria:

I. Akash puro -> II. Vayu em Akash -> III. Tejas em Akash -> IV. Apas em Akash -> V. Prithvi em Akash -> VI. Vayu puro -> VII. Tejas em Vayu -> VIII. Apas em Vayu -> IX. Prithvi em Vayu -> X. Akash em Vayu -> ...e assim por diante…

A instrução da OHdAD era, portanto, que o praticante, a princípio, desenvolvesse um baralho com 25 cartas, sendo que cada uma delas ilustraria as possíveis formas do fluxo dos tattwas. Hoje em dia, tal instrução não precisa ser seguida de forma literal, pois, para propósitos de meditação, é possível utilizar a própria tela do computador ou do celular.

Segundo Duquette (1995), a tabela dos “tattwas dentro de tattwas” também pode ser correlacionada às cartas da corte e aos ases do Tarô:

Para finalizar a parte teórica, cabe indicar o conceito de cada um dos cinco tattwas:

a. Akash

Akash, simbolizado por um “ovo” negro, é a força a qual não há como combater. Ele representa as leis universais, a justiça divina, o karma. Ele é o centro de todas as forças tattwicas.   

Como akash destrói tudo que é corporal, preservando somente a essência, ele pode ser visto como algo negativo por si só para aqueles que habitam o mundo material. Porém, para aqueles que buscam o espiritual, ele simboliza apenas um destruidor daquilo que é falso.

Outra versão desse símbolo apresenta-o como uma vesica piscis, apontando-o como o “útero da Mãe Universal”:

É dito que meditar nesse símbolo pode dar acesso aos “registros akáshicos”.

Correlaciona-se com o planeta Saturno e com o elemento Espírito.

b. Vayu

Simbolizado por um círculo azul, vayu é a linguagem, a comunicação. Seu aspecto positivo se manifesta através do estímulo intelectual, mas negativamente através de calúnias e enganações.

Correlaciona-se com o planeta Mercúrio e com o elemento Ar.

c. Tejas

Tejas é simbolizado por um triângulo vermelho. Em sua forma mais desenvolvida, denota aumento de energia, atividade, força produtiva e uma grande confiança em si mesmo; por outro lado, sua forma negativa expressa-se por meio de violência, agressividade, abuso de poder.

Correlaciona-se com o planeta Marte e com o elemento Fogo.

d. Apas

Apas, a crescente prateada, é o tattwa da intuição, do amor e da beleza. Positivamente simboliza a inspiração em sua forma mais pura, mas quando em seu aspecto negativo, gera egoísmo, cobiça e paixão desenfreada.

Correlaciona-se com o planeta Vênus e com o elemento Água.

e. Prithvi

Simbolizado por um quadrado amarelo, prithvi é o tattwa da alegria, da vitalidade, do prazer. Também relaciona-se à justiça, à humanidade e ao amor universal. Enquanto de forma positiva ele pode se manifestar por meio de bondade e caridade, seu aspecto negativo denota ambição e materialismo exagerado. 

Correlaciona-se com o planeta Júpiter e com o elemento Terra.

[2] Diferentes fontes fornecem diferentes grafias ou nomes inteiramente diferentes para os cinco tattwas, porém, seus conceitos sempre permanecem os mesmos.

[3] A ordem citada foi organizada baseada em Prasad (1997). Heller (1926) inverte a ordem de apas e prithvi, o que, pela minha experiência, não faz sentido. Água vem antes de terra num nível de sutileza. Os documentos da OHdAD confirmam essa ordem.


Prática

a. Preparativos

Como já explanado anteriormente, o praticante já deve estar realizando limpeza áurica/energética bem antes do início da rotina de meditações com tattwas, e deve persistir com essa prática durante todo o período do grupo de estudos.

Levando isso em consideração, o único preparativo antes de cada meditação é a realização dos devidos banimentos para purificar o ambiente, seguidos pelas devidas invocações, se escolher fazê-las. Ao praticante que se sentir à vontade com orações, pode pedir também a poderes superiores que o acompanhem e que o protejam durante sua jornada, e/ou entrar em contato com seu guia ou Sagrado Anjo Guardião.

Recomendações gerais (não são regras, mas seguir tais passos pode ajudar a lhe proporcionar uma melhor experiência):

  • não ingerir alimentos “pesados” por pelo menos 4 horas antes das meditações;
  • não ingerir bebidas alcoólicas por pelo menos 24 horas antes das práticas;
  • utilizar roupas leves e confortáveis ao meditar;
  • certificar-se que não haverá nenhum tipo de interrupção durante suas práticas, desligando celulares e reservando um espaço privado para as mesmas.

A utilização de enteógenos para potencializar as experiências meditativas fica a critério de cada praticante. Recomenda-se, apenas, que, caso o mesmo opte pelo uso de tais substâncias, faça-o com devido acompanhamento de outro indivíduo em estado sóbrio, a fim de reduzir o risco de incidentes desagradáveis, seja no plano mental/emocional, ou até mesmo no plano físico. Por outro lado, não recomenda-se a ingestão de bebidas alcoólicas para fins de potencialização da meditação.

b. Meditação

A seguir listam-se as instruções passo a passo de como realizar a meditação com tattwas:

  • Selecione o símbolo do tattwa em questão, apoiando-o em um fundo branco (uma parede, por exemplo), de modo que ele seja seu principal foco de visão. Fique voltado para o ponto cardeal referente ao elemento escolhido; [4]
  • Sente-se em asana ou em uma posição confortável de frente para o símbolo;
  • Foque sua visão e concentração no tattwa enquanto respira calma, profunda e plenamente (ou pranayama para os que preferirem). Esse estado deve ser mantido até que você sinta a imagem do símbolo “impressa” em sua mente. Se mesmo ao fechar os olhos ou ao olhar para a parede branca ele ainda estiver visível, prossiga ao próximo passo;
  • Feche os olhos e se concentre na imagem do tattwa. Nesse ponto, sua cor vai estar invertida em relação à original. Quando se sentir seguro, comece a visualizá-lo aumentando gradualmente, até se tornar do tamanho de uma porta;
  • Atravesse a porta;
  • King e Skinner (1976) recomendam, nas primeiras vezes, permanecer na soleira e apenas explorar com sua visão os arredores. Fica a critério do praticante querer adentrar ou não nas profundezas do plano em questão;
  • Caso adentrar a fundo, após explorar um pouco dos arredores, atente-se para não perder a porta de vista, e retorne de volta por meio do mesmo local onde adentrou;
  • Antes de abrir os olhos, imagine o tattwa ficando gradualmente menor, e se tornando novamente apenas um símbolo pequeno;
  • Finalize a meditação voltando pouco a pouco ao seu estado normal de consciência.

c. Rotina

A rotina estabelecida a seguir é o mínimo para conseguirmos obter relatos significantes em relação à prática de meditação com tattwas. Cada semana será relacionada a um elemento diferente, e todos os participantes devem seguir a ordem da mesma forma. Por outro lado, o dia da semana em que cada um fará sua meditação fica a critério pessoal:

Semana 01:

     Dia 01: Meditação com prithvi

     Dia 02: Meditação com [tattwa de sua escolha] em prithvi

 Semana 02:

     Dia 01: Meditação com apas

     Dia 02: Meditação com [tattwa de sua escolha] em apas

Semana 03:

     Dia 01: Meditação com tejas

     Dia 02: Meditação com [tattwa de sua escolha] em tejas 

Semana 04:

     Dia 01: Meditação com vayu

     Dia 02: Meditação com [tattwa de sua escolha] em vayu

 Semana 05:

     Dia 01: Meditação com akash

     Dia 02: Meditação com [tattwa de sua escolha] em akash

Reitera-se que essa é uma rotina mínima. Aos praticantes que tiverem mais tempo disponível para meditar, podem repetir a meditação com o tattwa puro, ou explorar mais “sub-tattwas”, conforme preferirem.

[4] Terra: norte, água: oeste, fogo: sul, ar: leste, espírito: direção de seu altar (se não tiver, volte-se ao leste).


Referências

  • DUQUETTE, L. M. Tarot of Ceremonial Magick. 1995.
  • KING, F.; SKINNER, S. Techniques of High Magic. 1976.
  • HELLER, A. K. El Tatwametro. 1926.
  • MELVILLE, F. The Secrets of High Magic. 2002.
  • PRASAD, R. Nature’s Finer Forces: The Science of Breath and the Philosophy of the Tattvas. 1997.
  • Tattva. Hindupedia. Disponível em: http://www.hindupedia.com/en/Tattva
  • Tattwas. Golden Dawn Correspondence Course Lesson 135. Disponível em: https://www.slideshare.net/AgostinoBano/tattwas-140316195020phpapp01
  • The Golden Dawn and the Tattvas. Tattwa Cards. Disponível em: http://tattwacards.blogspot.com/2015/08/the-golden-dawn-and-tattwas.html
  • The Tattvas of the Eastern School. Disponível em: https://www.tarrdaniel.com/documents/Thelemagick/gd/publication/english/Tattwas.html
  • Uma introdução à Tattvas ou (a verdadeira forma de tudo). Disponível em: https://hr2013.wordpress.com/2013/06/23/uma-introducao-a-tattvas-a-verdadeira-forma-de-tudo/