Por Diego Schirmer

É engraçado quando atos rotineiros tornam-se, em um estalo, praticamente uma experiência religiosa. Como um ritual que só vem a ter sentido depois de mil repetições, não por sua insistente recorrência, mas pelo entendimento de seu significado em alguma epifânia acidental, que faz tudo mudar de lugar.

Veja, eu sempre acreditei que toda motocicleta trouxesse algo de místico em sua essência. Entendo tal pelo silêncio mental, quase espiritual, que o ronco contínuo, o ruído do atrito dos pneus no asfalto, o som do vento açoitando o capacete, e a eterna possibilidade de deixar de existir a qualquer momento, seja por alguma fugaz desatenção, má sorte ou destino, trazem a quem pilota. É algo próximo à quietude reverente de algum templo onde pode-se encarar a morte, não com medo, mas com o peito repleto de respeito e resignação.

Assim como entendo a "Estrada" como algo próximo a um antigo deus dualista, ora libertador ora cruel, que embora ofereça a possibilidade de mil caminhos, cobra diariamente seus sacrifícios de sangue.

E temos Gaia, a natureza, que embora se mostre dura nestes invernos do sul, me brinda diariamente com cenas como a que vi hoje: através do frio das seis da manhã, um sol nascente lutava por rasgar o véu gelado de cerração quase sólida que me cercava, e, no campo a frente, desenhava aos poucos a figura de potros, que corriam para se aquecer.

E eu, dentro de tal quadro, não passava de paisagem itinerante. Tive a certeza de que sou apenas um frame temporário, que amanhã posso ser o próximo sacrifício dessa entidade que é a rodovia, e que, fora do pequeno e insignificante microcosmo de problemas, tristezas, parcos amores verdadeiros e amigos mais raros a cada ano, que é a minha vida, absolutamente nada mudaria. Simplesmente eu, paisagem itinerante, não mais passaria, poluindo, ou quem dera enfeitando de alguma forma, em meu engenho mecânico e barulhento, tal quadro de beleza descomunal.

Quando você se dá conta de tal ridiculamente frágil existência, todos os pontos, atitudes, exigências e pessoas que estão ao seu redor passam por uma reavaliação completamente diferente de outras que já havia tentado. E muito disso perde o valor superestimado que costumamos dar para essas coisas. Afinal, sou nada além de paisagem passageira em uma cena, em uma cerimônia muito maior que existe e segue, alheia a mim.

Isso não me faz mais feliz. Porém, me deixa calmo. Não de uma forma niilista de quem pouco se importa, mas sim de que o que realmente importa é muito maior do que o que eu julgaria, em minha antiga crença e prepotência.

Nada como uma longa estrada para te fazer pensar...