[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

As origens de Sagitário, o Arqueiro, são encontradas na estranha e complexa figura conhecida como Pabilsag. A familiar imagem da constelação grega na forma de um centauro armado com um arco e flecha é, na verdade, uma versão simplificada da figura babilônica, que é mais completa. A figura babilônica possui uma variedade de características que não são vistas na versão grega, como um par de asas, uma cauda de escorpião e a cabeça de um cão. Os detalhes da iconografia de Pabilsag mostram uma quantidade considerável de variação — algumas se apresentam sem asas ou cabeça de cão ao mesmo tempo, enquanto outras substituem as patas traseiras por patas de pássaro.

Sagitário extraído de um manuscrito árabe

Embora a imagem básica do centauro possa ser traçada desde a metade do 2.º milênio a.C. (o período cassita), a figura é certamente mais antiga, já que o nome da constelação aparece nas listas estelares do período anterior da Antiga Babilônia. Uma forma potencialmente mais antiga do Arqueiro, a qual não possui qualquer característica equina, pode também ser encontrada em pedras de direito. Ela combina características de um arqueiro humano com o corpo de um escorpião e traços de aves (figura a seguir). Criaturas bastante similares aparecem pela primeira vez na arte acádia, onde podem apresentar asas, e geralmente possuem um falo com cabeça de cobra. Não se sabe se essas imagens acádias representam uma forma mais antiga de Pabilsag; no entanto, a iconografia delas certamente parece ter influenciado sua figura posterior.

Uma imagem do século XII a.C. do arqueiro com corpo de escorpião

A evidência mais antiga de adoração a Pabilsag pode ser datada do 3.º milênio a.C. Desde o período da Antiga Babilônia, ele é frequentemente identificado com o deus Ninurta. Mas, tirando isso, muito pouco se sabe sobre esse personagem além do fato dele ser, como Ninurta, um filho de Enlil. A afinidade próxima de Pabilsag e Ninurta manifesta-se em suas representações, nas quais ambos aparecem atacando criaturas demoníacas com seu arco e flecha (figuras a seguir). Essas criaturas provavelmente representam o demônio Asakku, um dos arqui-inimigos de Ninurta.

Pabilsag e Ninurta, respectivamente, atacando um demônio

A constelação de Pabilsag é escrita “Mul Pa-bil-sag”:

A palavra suméria Pabil significa “ancestral ou parente”. Em combinação com o elemento final sag, que significa “chefe ou acima de tudo”, seu nome pode ser traduzido como “Ancestral Chefe” ou “Antepassado”.

Epítetos adicionais, como “a arma com ponta em chamas” ou “aquele que ataca com uma ponta em chamas”, podem ser derivados de símbolos individuais usados para escrever o nome de Pabilsag.

O símbolo-Pa ilustra dois galhos; ele tem vários significados, incluindo “cetro” e “bastão”, e também pode ser usado para escrever os verbos “atacar” ou “bater”.

O símbolo-Bil ilustra um braseiro em chamas; pode ser usado para escrever “queimando, ardendo, quente”. Braseiros eram comumente empregados em rituais dedicados aos ancestrais. Esse símbolo é usado como um equivalente fonético para o mais apropriado símbolo-Bil (que será mostrado logo adiante).

O símbolo-Sag ilustra uma cabeça humana; refere-se ao “topo ou ponta” de algo, e também é usado para simbolizar “primeiro, primordial ou de melhor qualidade”.

O saber celestial babilônico revela que a família imediata de Pabilsag também era representada entre as estrelas. Sua esposa, a deusa da cura, comumente chamada Ninisina ou Gula, tinha sua estação celestial na constelação da Cabra. O filho deles, Damu, “a criança”, que anualmente renasce após o solstício de inverno, é representado entre as estrelas na forma da constelação do Suíno. A esposa de Pabilsag tem um cão como seu símbolo divino, o que pode explicar porque ele é comumente representado com uma cabeça de cachorro brotando de seus ombros (figura a seguir).

Pabilsag extraído de uma pedra de direito

Seu nome, Pabil-sag, revela-o como o “Ancestral Chefe” ou “Antecessor”. Mas essa afirmação apenas faz surgir uma infinidade de perguntas em relação à natureza dos ancestrais e do estado da alma humana no pós-vida.

Algumas das respostas sobre a natureza da alma podem ser encontradas do Épico de Gilgamés, no qual Enkidu, o companheiro do herói, sonha com sua própria morte iminente. Ele sonha que se colocou entre o céu e a terra, e que um “homem” com o rosto de um pássaro Anzu o agarrou, transformou-o em uma pomba e o carregou, com as asas amarradas, para a casa de onde não há retorno. Em sua visão subsequente do submundo, Enkidu vê a infeliz hoste de mortos reunida em forma de espíritos, “vestidos em casacos de penas”.

[Anzu é um tipo de monstro comum na religião mesopotâmica, geralmente representado na forma de um grande pássaro capaz de cuspir fogo ou água.]

Reconhecidamente, a mesma ideia pode ser encontrada na mitologia grega, onde fantasmas são, por vezes, representados como pequenos homens e mulheres alados pairando sobre a tumba. A morte também pode ser pensada como a alma sendo “arrebatada” por um demônio. Os gregos viam esses demônios como as Harpias, literalmente as “Arrebatadoras”, e visualizavam-nas como mulheres-pássaro. Às vezes, imagens delas adornavam lápides, nas quais podiam ser vistas carregando as almas dos mortos ao submundo, como o pássaro Anzu fazia na arte mesopotâmica.

Entretanto, há um segundo elemento na equação simbólica. As Harpias, como o pássaro Anzu, também são personificações dos ventos. E os ventos, como os ancestrais, têm o poder de fertilizar, de gerar nova vida. Daí vem a famosa citação de Virgílio de que as éguas podiam ser impregnadas pelo vento. Assim, os fantasmas dos mortos também podem ser vistos como pássaros ou homens e mulheres alados. O simbolismo das asas reforça a ideia de que a natureza essencial da alma é de ar ou vento. A total amplitude de funções associadas aos ancestrais é exemplificada pelos Tritopátres Atenienses, os “antecessores da terceira geração”, que são ventos, ou “senhores dos ventos”, assim como fantasmas. Os jovens moços de Atenas faziam oferendas a eles antes do casamento, sem dúvida para garantir um saudável patrimônio de filhos e herdeiros.

Impressão de um selo de Uruque

A discussão supracitada, inspirada pelas tradições grega e babilônica, esboçou algumas das características mais básicas associadas aos ancestrais. Retornando à evidência babilônica, podemos agora penetrar mais fundo nos mistérios do Ancestral Chefe.

Em relação à constelação de Pabilsag, dois fatores imediatamente se destacam como altamente significativos. Primeiro, a estrela dele ascende no nono mês do ano, que é o último mês do calendário simbólico carimbado nas estrelas. Esse é o momento do ano no qual o sol desce até seu ponto mais baixo no solstício de inverno, e os portões para o submundo se abrem, simbolizando a transição entre morte e nova vida. Segundo, Pabilsag localiza-se diretamente dentro do curso da Via Láctea, onde abruptamente ascende de regiões mais ao sul próximas do horizonte e atinge as partes mais altas dos céus. Julgando pelas outras constelações encontradas nessa parte do céu, como a Águia e a Pantera, essa seção da Via Láctea provavelmente representa as almas dos mortos em seu caminho para o pós-vida.

Unidos, esses elementos pintam um quadro de Pabilsag como guardião e guia das almas dos mortos. Em muitas de suas características essenciais, ele pode, portanto, ser igualado à figura do Caçador Selvagem do folclore ocidental. O tema da caça, inerente em seu arco e flecha e nas várias imagens nas quais ele caça um demônio ou antílope, apontam ao seu papel ancestral de guiar os mortos e protegê-los contra qualquer espírito maligno que estivesse à solta no momento. Ele conduz as almas dos mortos com os ventos, para longe da terra e em direção aos céus acima.

Muitas culturas antigas expressam o conceito de ancestrais em termos de árvores. De certa forma como a “árvore familiar”, que mostra gerações sucessivas de uma família com todas as suas linhas de descendência, a árvore principal e seus brotos são usados na arte mesopotâmica para indicar a geração da prole. Isso é perfeitamente ilustrado no desenho de selo visto a seguir, no qual duas cabras da montanha comem folhas de uma árvore principal e assim produzem suas crias, as quais brotam de seus chifres. Paralela a esse ícone gerador, a árvore principal também produz dois novos brotos que emergem das encostas das montanhas.

Árvores e brotos denotam a geração da prole

O sistema de escrita utiliza a mesma ideia na maneira como a palavra “ancestral” é construída:

Como muitas palavras em sumério, “ancestral” pode ser escrito de diversas formas. A palavra mais comum para “ancestral” é Pabilga, que é escrita usando o símbolo-Pa, o qual ilustra dois galhos, e o símbolo-Gibil (lido aqui como Bil). O símbolo-Gibil ilustra uma palmeira com dois novos brotos saindo de seu tronco; seu significado básico é “(ser) novo”.

As comparações não param aqui. Outra maneira curta de escrever “ancestral” é Bilga, palavra usada também para trazer a ideia de “ancestral masculino”, assim como “fruta e flor”:

Essas ideias são frequentemente ilustradas na arte tradicional, onde o veado e outras bestas com chifres comem a fruta e as flores das plantas sagradas (figura a seguir). Desse modo, os processos de geração de plantas e árvores são usados para trazer a ideia de regeneração animal e humana.

Cabras selvagens comem flores

Na astrologia, os temas de morte e destruição são bem aparentes na história de Pabilsag. Até hoje, apenas profecias para a presença de Júpiter foram recuperadas, mas elas mostram uma imagem bem desoladora, predizendo destruição e carnificina para a terra, e a morte do príncipe.

Como as outras constelações da eclíptica que ascendem no inverno, Pabilsag surpreendentemente possui poucas profecias atribuídas a ele. Essa ausência é habilmente contornada pelos astrólogos babilônicos ao identificarem sua parte componente com outras constelações independentes de aparência similar. Por exemplo, a flecha de Pabilsag pode ser identificada com a constelação da Flecha (propriamente falando, a estrela Sirius, que marca o solstício de verão), e sua cauda de escorpião pode ser identificada com o Ferrão do Escorpião. A afinidade próxima entre Pabilsag e Ninurta pode ter contribuído com essas identificações em particular, já que tanto a Flecha quanto o Ferrão do Escorpião estão intimamente associadas com Ninurta no saber astrológico.

Em algum lugar dentro ou nos arredores de Pabilsag, acontece um fenômeno astral misterioso chamado “mišhu”. O termo acádio refere-se a um “lampejo” ou “iluminação”, e pode ser aplicado à “trilha” de um meteoro, ao “resplendor” do tecido, e até mesmo ao “brilho” de uma pessoa. Como característica estelar, o mišhu pode se referir à parte da Via Láctea, ou a um de seus muitos aglomerados estelares e nebulas encontradas nas proximidades.

Uma versão moderna de Pabilsag