[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

As origens do signo de Virgem podem ser traçadas a partir da constelação babilônica do Sulco. Como a familiar imagem grega, o Sulco era representado como uma deusa carregando uma grande espiga de cevada. Ela simbolizava os campos de cevada no início do outono, quando eles estão prestes a ser semeados, e, como seria de se esperar, sua estrela era usada na astrologia para prever o sucesso ou fracasso da colheita vindoura: “Se o Sulco estiver obscurecido: a colheita de cevada será abaixo do esperado, haverá escassez e a terra será coberta de palha.” Nesse presságio, a constelação estar “obscurecida” significava que um eclipse lunar estava acontecendo nessa região dos céus.

Šala com sua haste de cevada, detalhe de uma das tábuas de Uruque

Na verdade, seria mais preciso considerar a imagem moderna de Virgem como uma combinação de duas constelações babilônicas independentes — o Sulco e a Fronde, as quais ocupavam os setores leste e oeste de Virgem, respectivamente. A Fronde, situada logo atrás do Leão, era representada como uma deusa segurando uma folha de tamareira — esse atributo foi retido em muitas imagens de Virgem, nas quais ela segura uma espiga de cevada em uma das mãos, e uma folha de tamareira na outra (imagem a seguir). Podemos especular que, quando as constelações da eclíptica foram transformadas nos 12 signos do zodíaco, os simbolismos independentes do Sulco e da Fronde foram combinados em uma única figura que agora representava os dois componentes principais da dieta babilônica — pão de cevada sem fermento e tâmaras. É notável que os alimentos babilônicos foram retidos na imagem de Virgem, ainda mais porque a agricultura grega era dominada por trigo e olivas.

Virgem de um atlas estelar do século XIX

O resultado final de combinar essas duas constelações babilônicas na figura de Virgem é que ela é agora uma das maiores constelações do firmamento. Ela está posicionada em um ponto não muito confortável, deitada na eclíptica com sua cabeça estranhamente abaixo da cauda do Leão. Quando o saber estelar grego foi transmitido à Arábia, a imagem da constelação de Virgem foi modificada novamente. Sua haste de cevada, um símbolo sem sentido nos desertos árabes, foi omitido totalmente, e ela ainda sofreu a indignidade de ver um de seus braços cortados do cotovelo para baixo e tê-lo inserido em sua coxa (figura a seguir) — tal brutalidade foi necessária para ajustar sua imagem de tamanho exagerado na configuração do céu.

A Virgem árabe

A constelação do Sulco é geralmente escrita como “Mul Ab-sin”:

Esses símbolos são lidos como šer’u em acádio.

A palavra suméria Ab-sin, a qual significa um sulco semeado, é tipicamente escrita com o símbolo-Arado (Apin). Contudo, o nome da constelação é geralmente escrito de maneira silábica como “Mul Ab-sin”.

Em um nível pictórico, pode ser uma alusão aos campos sendo “o território dos pássaros”, já que o símbolo-Ab refere-se a “um santuário ou morada”; também é possível ser referência ao mapa estelar, no qual a figura do Corvo situa-se ao lado do Sulco.

Em alguns textos astrológicos, o Sulco pode ser escrito como “Mul Ki-hal”:

O símbolo-Ki provavelmente representa um pedaço de terra. É geralmente usado para simbolizar uma diversidade de ideias relacionadas à terra, desde “chão ou solo” até “lugar ou casa”, e também “distrito ou região”, e até mesmo “a terra inteira”, como um oposto ao céu.

O símbolo-Hal pode ser usado para escrever o verbo “dividir”. Então, o provável significado desses símbolos seria algo como “a terra dividida”, ou seja, um sulco.

Durante os meses do verão, a terra em pousio era preparada para a vindoura estação de plantio e crescimento das lavouras. Os campos eram irrigados para amolecer o solo, e, depois, progressivamente trabalhados com uma variedade de arados, a fim de romper o solo. A semeadura começava no 7.º mês, logo após a ascensão do Sulco, e continuava por todo o outono. Nas Menologias Babilônicas, um festival-akitu em especial, celebrado no 8.º mês, marcava a estação de plantio.

Ao invés de semear os campos à mão, o que seria muito demorado e antieconômico, os fazendeiros mesopotâmicos desenvolveram um arado especial que plantava a semente diretamente no sulco. Como regra geral, os sulcos eram espaços mais ou menos ¾ de metro um do outro — esse espaçamento facilitava a irrigação e permitia acesso fácil para capinar e colher. Até hoje, um método similar é utilizado em áreas subdesenvolvidas da Turquia.

A imagem de um feixe de cevada até mesmo aparece na escrita cuneiforme por meio do símbolo conhecido como Nidaba (figura a seguir); ele é ocasionalmente usado para escrever “grão”, mas é mais utilizado com um determinativo divino que significa “Nisaba”, a antiga deusa dos grãos. Apesar da importância de Nisaba na cultura mesopotâmica, em todos os registros estelares disponíveis a regente do Sulco é Šala, uma deusa menos conhecida que se originou no panteão dos hurritas.

O símbolo-Nidaba

Šala era mais conhecida como esposa de Adad, o deus fecundo da tempestade, que era o regente da constelação vizinha do Corvo. A haste de cevada de Šala e o raio de Adad eram, por vezes, representados juntos em pedras de direito (figura a seguir). Sua proximidade no mapa estelar e seu casamento simbolizavam os campos recém semeados se tornando férteis com chuvas e inundações.

Detalhe de uma pedra de direito

Como Šala e Adad são ambos divindades hurritas, é improvável que tenham sido assimilados ao panteão mesopotâmico antes dos últimos séculos do 3.º milênio a.C., quando os povos hurritas começaram a aparecer no horizonte histórico. Sua incorporação no saber estelar babilônico pode ser melhor entendido como uma tentativa de integrar os hurritas no vasto mundo mesopotâmico.

Šala e Adad em um monumento hitita

No mapa estelar babilônico, uma representação de Mercúrio era colocada entre as figuras de Šala e do Corvo. A associação sobreviveu na astrologia moderna, pois a exaltação de Mercúrio é no signo de Virgem.