Origem Babilônica do Zodíaco [4] - Câncer

[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

O Caranguejo é descrito em um texto astrológico do 1.º milênio como tendo inúmeras estrelas ao seu lado, e contendo em seu centro um grupo unido de estrelas. Estas seriam o aglomerado estelar aberto conhecido pelos gregos como Manjedoura ou Colmeia. Como a figura grega de Câncer, seu nome mais recente, o Caranguejo babilônico se posiciona na elipse com suas garras apontando para o Leão.

Uma versão arábica de Câncer

Há tempos notou-se que não há representações conhecidas de caranguejos em quaisquer pedras de direito, uma circunstância que levou alguns pesquisadores a sugerir que essas figuras seriam equivalentes às representações de tartarugas nesses monumentos. Na verdade, isso é bastante plausível, já que o nome do caranguejo pode ser escrito como Kušu, que significa “criatura aquática”. E, de acordo com o léxico, esse símbolo pode se referir tanto a um caranguejo quanto a uma tartaruga-mordedora.

Uma versão antiga do símbolo-Kušu

A tartaruga dá a impressão de ser um símbolo importante nas pedras de direito. Ele comumente ocorre individualmente, e ocasionalmente em combinação com o peixe-cabra. Esses dois símbolos, assim como o bastão com cabeça de carneiro, também comumente encontrado em combinação com o peixe-cabra, são todos atribuídos ao sábio deus Enki. Como o peixe-cabra e o bastão com cabeça de carneiro representam, respectivamente, Capricórnio e Áries, é bastante provável que a tartaruga represente Câncer — os três símbolos possuem os significados adicionais de serem cada um a marca de um dos equinócios ou solstícios.

Uma tartaruga de uma pedra de direito

Na era na qual o Mul-Apin foi composto, o caranguejo ocupava a seção mais ao norte da eclíptica, onde o sol, a lua e os planetas alcançavam sua posição mais setentrional. Esse fato provavelmente está registrado no Mul-Apin devido à constelação ser chamada de “assento de Anu.” O deus Anu, que é literalmente o deus dos “céus”, governa o mais alto e mais remoto dos três céus sobrepostos da cosmologia babilônica; portanto, faz sentido que ele governe o setor mais alto da eclíptica, também. Talvez pela mesma razão, a estação especial de Júpiter, o “rei dos planetas”, esteja localizada entre o leão e o caranguejo, uma associação que sobreviveu até tempos modernos, já que sua exaltação astrológica é encontrada em Câncer.

[Na astrologia, diz-se que um planeta está “exaltado” quando ele se encontra em um signo no qual se sente “à vontade”, e ali suas características se manifestam com mais intensidade e de forma mais positiva.]

Como uma criatura das águas, o caranguejo é usado em profecias astrológicas para prever futuras enchentes. Os fundamentos dessa prática estão expressos em forma binária: “Se as estrelas do caranguejo cintilarem: grandes enchentes virão; se as estrelas do caranguejo estiverem apagadas: grandes enchentes não virão.”

Esse esquema básico é desenvolvido posteriormente na Grande Lista Estelar, na qual as estrelas frontais do caranguejo representam especificamente as águas do Rio Tigre, enquanto suas estrelas posteriores são usadas para prever o nível de água do Rio Eufrates.

A associação do caranguejo com rios é tão forte que o seguinte presságio é entendido como referência ao caranguejo, mesmo que ele não esteja explicitamente mencionado: “Se a lua estiver cercada por um rio: haverá grandes enchentes e tempestades — o caranguejo se situa na auréola da lua.” Refletindo o mesmo simbolismo, alguns textos astrológicos posteriores referem-se ao caranguejo simplesmente como “as águas” (A-meš).

Em textos astrológicos, o caranguejo é geralmente escrito como “Mul Al-lul”:

O termo sumério foi emprestado do acádio, alluttu — um “caranguejo”. A forma plural do nome acádio pode ter sido usada para designar “tenazes ou pinças”.

Embora haja uma fonte que sugira que o nome do caranguejo signifique “o cavador enganoso”, na verdade, é impossível ter certeza. Por sorte, há duas maneiras alternativas de escrever o nome do caranguejo que podem lançar alguma luz sobre seu possível significado — A-meš é simplesmente “as águas”, e A-lu pode ser entendido como “água abundante”.

Seus elementos componentes são:

O símbolo-Al, o qual representa uma enxada ou picareta, talvez aludindo às garras do caranguejo como ferramentas de cavar, ou às nadadeiras em forma de pá da tartaruga.

O símbolo-Lul representa uma raposa; ele possui uma variedade de significados individuais, incluindo “falso, enganoso, criminoso e rebelde”. É o elemento primário no nome da Estrela-Raposa e da Estrela Falsa, ambas comumente consideradas referências a Marte.

O caranguejo, na verdade, é identificado com a Estrela Falsa na máxima astrológica: “a Estrela Falsa é o caranguejo.” Esse aforismo ilustra um dos métodos esotéricos empregados pelos astrólogos para derivar identificações entre um corpo estelar e outro. Essa comum identificação entre a Estrela Falsa e o caranguejo pode ser entendida em termos da escrita cuneiforme, já que a Estrela Falsa é escrita como Lul-la — quando esse nome é lido de trás para frente, o nome sumério do caranguejo, Al-lul, é revelado.

Em textos posteriores, o nome do Caranguejo também pode ser escrito com o símbolo-Nagar (figura a seguir), o qual representa um carpinteiro ou artífice, o que sugere que ele foi selecionado para ilustrar a analogia entre as garras do caranguejo e a serra do carpinteiro.

Na cultura grega, as origens do caranguejo como figura celestial podem ser traçadas a partir dos Trabalhos de Héracles. Em seu segundo trabalho, a Héracles é dada a tarefa de derrotar a monstruosa Hidra, uma serpente de várias cabeças que estava aterrorizando os pântanos em volta da cidade de Lerna. Em certa altura do combate, um caranguejo gigante emergiu do pântano para distrair o herói beliscando seu pé — mas de nada adiantou, pois Héracles simplesmente esmagou a infeliz criatura debaixo de sua sola. Após sua vitória, a deusa Hera reverentemente colocou o caranguejo nos céus como Câncer.

Acredita-se que esse episódio envolvendo o caranguejo tenha sido inserido nos Trabalhos por um astrólogo bastante dedicado a relacionar os 12 Trabalhos com os 12 signos do zodíaco. Porém, vários elementos desse mito podem ter paralelos traçados com o mito do deus mesopotâmico Ninurta. Suas façanhas contra uma série de monstros fantásticos, chamados os Heróis Assassinados, são hoje pensadas como possíveis inspirações para os Trabalhos de Hércules.

Dois deuses guerreiros lutam contra um dragão de sete cabeças

Listado entre os monstros que Ninurta derrotou está um dragão de sete cabeças, o qual é obviamente um protótipo para a Hidra grega; a ilustração anterior, datada do Período Dinástico Arcaico, mostra uma dupla de deuses sem nome atacando a grande besta. O encontro de Héracles com o caranguejo é um paralelo direto com outro episódio do mito de Ninurta, no qual ele batalha com uma tartaruga. A história conta como Ninurta cobiçava os poderes e símbolos da vida civilizada (chamados Me, em sumério) para seu uso próprio. Mas Enki, o sábio deus do abismo, previu a intenção egoísta de Ninurta, e criou uma tartaruga para lutar contra ele. Os adversários, presos em um combate mortal, caíram em um poço no qual a tartaruga ficou rasgando os pés de Ninurta com suas garras. Outro fragmento mítico da Mesopotâmia fornece um protótipo para o motivo grego de Héracles pisar no caranguejo, pois diz-se que Ninurta pisoteou a tartaruga mordedora (Kušu) na poça de maré.

Fazendo mais um breve comentário comparando as mitologias grega e mesopotâmica, em ambas o caranguejo ou a tartaruga são recém criados ou recém colocados entre as estrelas — em outras palavras, os mitos detalham a própria criação de Câncer como constelação. A criação da maioria das constelações é devida, em grande parte, a efeitos de longo prazo da precessão de equinócios. Esse fenômeno faz com que as estrelas ascendam cada vez mais tarde no calendário, gerando a necessidade da criação periódica de novas constelações. O caranguejo, na verdade, herdou seus principais traços simbólicos da figura bem mais antiga da serpente.

Um aspecto final do simbolismo do caranguejo que vale a pena ser explorado — ele possui uma associação inconfundível com a morte, os ancestrais e o caminho do submundo. Essas associações estão refletidas particularmente no saber mágico que cerca o caranguejo, o qual pode ser utilizado “para tomar controle de um fantasma e deixá-lo que se comunique com os vivos, revelando, assim, a natureza da morte dos homens; e para oferecer água a um fantasma”. Um simbolismo comparável é proeminente no saber astrológico quando aprendemos que: “Se a Estrela Estranha (Marte) se aproximar do caranguejo: o governante morrerá.” E que: “Se o caranguejo estiver obscurecido: o fantasma de uma pessoa injustiçada (ou o espírito da morte) tomará a terra, e mortes acontecerão.”

Parte desse simbolismo mórbido é devido a questões de calendário, pois o caranguejo faz sua aparição anual no curso do 4.º mês, quando os ritos de morte de Dumuzi são celebrados. Em muitos aspectos, esses ritos formam um prelúdio ao festival dos ancestrais celebrado no 5.º mês, no qual os ancestrais são temporariamente convidados de volta ao mundo superior para comungar com os vivos — e isso seria responsável por grande parte do saber mágico mencionado anteriormente. O caminho que os ancestrais percorriam para o mundo superior está localizado na região do caranguejo, e é lembrado na mitologia grega como a entrada para o submundo situada próxima ao lar da Hidra. Dionísio usou essa entrada quando tentou trazer sua mãe de volta do reino das sombras. E esse caminho também é lembrado na astrologia romana como o “Portão dos Homens”, a rota usada pelas almas dos bebês destinados a nascer na terra.

Esses portais celestiais são lembrados em outra peça que reflete o conhecimento estelar romano: o globo do Atlas Farnésio, uma esfera celestial do século II, contém um estranho retângulo acima da figura de Câncer (figura a seguir). De acordo com Plínio, ele era chamado de “Trono de César”, e foi colocado nos céus para marcar o avistamento de um cometa em 44 a.C., o qual acreditou-se ser a alma de César ascendendo aos céus como um deus. Essa notável peça enfatiza o papel dos portais celestiais como caminhos de ida e vinda — enquanto os recém nascidos da humanidade desciam pelo portal do verão, as almas dos deuses, ou dos grandes homens, ascendiam aos céus.

Detalhe do globo do Atlas Farnésio (invertido da esquerda para a direita)

A ideia de que as almas dos recém nascidos desciam à terra no meio do verão pode explicar o motivo do pequeno aglomerado estelar dentro de Câncer ser chamado de “manjedoura” — acredita-se ser a versão grega do curral mesopotâmico, o qual mantinha uma associação com o nascimento de gado e de seres humanos.

Outra razão da associação do caranguejo com o submundo pode ser encontrada no nome acádio alluttu. Embora provavelmente não haja real conexão etimológica, seu nome pode ser facilmente assimilado à deusa semita do submundo, conhecida como Allatum, a qual foi posteriormente identificada com Ereškigal, a grande rainha dos mortos suméria.

Esses traços mórbidos certamente foram transferidos ao caranguejo a partir da serpente, a qual não apenas possui uma natureza de água, mas é também um dos principais símbolos do reino ancestral por meio de sua atribuição a Ningišzida, o “Senhor do Submundo”. Até mesmo a simbologia de renascimento associada ao caranguejo é encontrada na história da serpente — já que a serpente-bašmu é literalmente a “serpente com um ventre”.

Caranguejo de um selo do século II a.C.

Retornando aos Trabalhos de Héracles, podemos agora entender a ação essencial do mito — o assassinato da Hidra e a criação de Câncer — como o ciclo de reforma das estrelas, o qual se refletia nos efeitos da precessão de equinócios em andamento. A antiga constelação da serpente tinha se deslocado a ponto de não mais aparecer na estação apropriada, e consequentemente ela foi “assassinada” e substituída pelo caranguejo, que agora incorporava os traços simbólicos antigamente associados a ela.