Origem Babilônica do Zodíaco [2] - Touro

[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

O touro selvagem, o qual vagava pelas planícies da Mesopotâmia central desde tempos imemoráveis, era uma criatura massiva com quase dois metros de altura. Na literatura e nas artes visuais, ela era venerada como um símbolo da força sobrenatural e da ferocidade, muitas vezes sendo usada como atributo de deuses e reis. Seus chifres curvos inspiraram o adorno utilizado por deuses e deusas para simbolizar sua posição divina.

É preciso ressaltar que o touro selvagem era apenas comparado a super-humanos, como deuses, reis e heróis. Em contraste, pessoas comuns eram geralmente comparadas a gado doméstico ou ovelhas. Essa posição de subordinação era ainda mais reforçada pela visão de que o rei seria o “pastor” de todas elas.

Uma impressão de um selo sumério

O gado começou a ser domesticado pela primeira vez nos férteis vales da Mesopotâmia por volta de 7.000 a.C. O motivo prevalecente para sua domesticação não foi a carne, mas sim a grande força dessas criaturas, a qual foi empregada pelos primeiros fazendeiros para fornecer tração aos arados e trenós de debulha. A maioria das famílias mantinha apenas um ou dois animais, e eles eram tratados quase como se fossem parte dela. Grandes rebanhos eram muito mais raros, sendo mantidos apenas pelo palácio e pelo templo, cujos recursos financeiros e logísticos eram suficientes para sustentá-los. O leite, o mais valioso subproduto daquela época e local, era transformado em queijo, manteiga e ghee. Na arte dos séculos V e IV a.C., o touro é frequentemente combinado com uma espiga de cevada — juntos, simbolizam a fortuna e as recompensas dadas pela terra durante a revolução agrícola do Neolítico.

O intemporal significado do touro como símbolo de prosperidade e rebanhos abundantes é transmitido em vários presságios contrastantes: “Se a constelação do Touro dos Céus estiver brilhante: os bezerros prosperarão”, mas se as estrelas estiverem esvaecidas: “a riqueza da terra desaparecerá; os bezerros e cordeiros não prosperarão.” Essas profecias expõem parte do esquema de codificação mais simples que sustenta a divinação celestial — se uma estrela ou constelação estiver “brilhante”, seu significado é positivo, mas, se estiver “esvaecida” ou “obscura”, a previsão é negativa.

Além de sua natureza como símbolos da prosperidade da terra, o touro, a vaca e o bezerro possuem uma qualidade decididamente celestial em si. A poesia suméria, por vezes, refere-se às nuvens carregadas de chuva como “bezerros do deus da tempestade”, e outros textos atribuem imensos rebanhos de gado ao deus da lua; seus números — acima de meio milhão de animais — são tão implausivelmente grandes que muitos estudiosos modernos têm sugerido que representam as estrelas do céu.

Ideias bem similares sobre rebanhos celestiais podem ser encontradas em outras culturas antigas. Os egípcios personificaram os céus com a deusa Hator, a qual era frequentemente representada como uma vaca estrelada com o disco solar entre seus chifres. O deus com cabeça de falcão, Hórus, entrava em sua boca toda noite para reemergir como o sol no dia seguinte. Ideias comparáveis também podem ser encontradas na literatura védica, como rebanhos de vacas representando as férteis chuvas que caíam dos céus, ou raios do sol surgindo no amanhecer. Nesse esquema simbólico, o bezerro de ouro naturalmente representa o sol da primavera recém-nascido emergindo das águas cósmicas, assim como o bezerro recém-nascido emerge das “águas” do ventre da mãe. Miticamente falando, o bezerro é um símbolo do sol renascido e da vida ressurgente que o segue. Tal ideia toma forma também na tradição mesopotâmica, na qual Šamaš, o deus solar, pode ser chamado de “bezerro da vaca selvagem”.

O Touro dos Céus é escrito como “Mul Gu-An-na”:

Em acádio, esses símbolos são lidos juntos como alû — “o touro dos céus”, o qual ocorre em textos míticos, mágicos e astrológicos.

O símbolo-Gu ilustra a cabeça de um touro. Como muitos símbolos relacionados a animais, ele apenas representa a parte mais característica da criatura, resumindo o animal como um todo. Essencialmente, o mesmo modelo preserva-se na forma do símbolo astrológico moderno de Touro.

O termo sumério Anna significa “dos céus”. O símbolo-An, o qual ilustra uma estrela, possui três significados distintos — “céus”, “deus” em geral, e o deus “Anu” em particular.

O último símbolo-Na funciona como um elemento gramático, representando aqui o possessivo — então, o nome todo pode ser lido tanto como “Touro dos Céus” ou “Touro de Anu”.

Inana e o Touro dos Céus

Durante o 4.º milênio a.C., o símbolo do touro começou a ser associado a uma variedade de divindades; e é desse período que a primeira evidência da existência de constelações é derivada. Um fascinante selo cilíndrico do período de Uruque (figura anterior), manufaturado apenas alguns séculos depois da invenção da escrita, está decorado com uma cena que pode efetivamente ser lida.

No lado direito, o Touro dos Céus aparece com uma série de três estrelas posicionada sobre ele, sendo essa uma forma variante do símbolo-Mul que significa uma “estrela, planeta ou constelação”. O grupo de símbolos à esquerda pode ser lido como “a deusa Inana do amanhecer e do anoitecer”. A própria Inana é representada pela sua sagrada coluna de juncos que se situa diante do touro, e sua posição divina é marcada pela estrela de oito pontas. Os símbolos usados para representar “amanhecer” e “anoitecer” são imagens espelhadas verticalmente, a original sendo o sol nascendo entre um par de montanhas. Como atributos de Inana, eles são geralmente considerados uma identificação dela com o planeta Vênus, o qual é chamado de “estrela da manhã” e também de “estrela do anoitecer”. Então, esse selo não apenas nos fornece uma das mais antigas evidências de uma constelação na Mesopotâmia, como também ilustra a primeira associação definitiva de uma divindade planetária com uma constelação.

O círculo disposto diante do touro, e duplicado em sua testa, muito provavelmente é o disco solar. Diversas peças de evidência confirmam uma associação entre o touro e o sol. Uma das principais referências ocorre na versão padrão do Épico de Gilgamés — após os heróis matarem o Touro dos Céus, “eles guardaram seu coração e levaram-no até o deus solar Šamaš”. Na literatura de presságios, a associação solar aparece entre as informações sobre Vênus: “Se Vênus estiver posicionada na coroa do Sol — ela se aproxima da Mandíbula do Touro”. (A equação baseia-se, provavelmente, no fato de que a Mandíbula do Touro é também conhecida como Coroa de Anu.) A atribuição solar ainda está presente nos últimos textos — um escrito do 1.º milênio, o qual combina astrologia e divinação por meio de fígados, atribui o deus solar ao segundo mês do ano e ao Touro dos Céus.

Uma pedra de pedestal do 1.º milênio, originária de Taima, Arábia

O ícone do touro celestial pode ser encontrado em artefatos espalhados pelo Antigo Oriente Próximo. Em um desses objetos, uma pedra de pedestal originária de Taima (figura anterior), ilustra-se um verdadeiro conjunto de símbolos celestiais de culturas vizinhas. No centro da pedra, o principal objeto de veneração é a cabeça do touro coroada com um disco solar. Sua aparência é bastante reminiscente das representações egípcias do touro Ápis. Arranjados em sua volta, situam-se diversos símbolos astrais — um disco alado, uma crescente lunar, e uma estrela de Vênus — todos claramente originários do Oriente Próximo.

Muitas vezes, o gado celeste pode ser identificado somente pelo disco solar entre seus chifres. Entretanto, sua natureza aérea era comumente transmitida pela simples técnica de adorná-lo com asas:

Um touro alado passeia entre flores

Na tradição babilônica, a natureza do touro celestial é melhor observada no poema sumério intitulado “Herói em Batalha”, o qual faz parte do primeiro ciclo de Gilgamés. No poema, Inana pede o Touro dos Céus ao seu pai, Anu, para que ela possa executar sua vingança sobre Gilgamés, que rejeitou seu amor. Embora Anu não esteja feliz em entregar o touro, dizendo que ele não teria o que comer na terra, pois “sua pastagem está no horizonte” e que “ele só se alimenta quando o sol nasce”, ele finalmente cede ao pedido de sua filha quando ela se enfurece. Inana leva o touro pelo cabresto até a terra, onde ele devasta a cidade de Gilgamés, Uruque. Em sua fome insaciável, ele devora as pastagens e palmeiras, e bebe os rios até eles secarem.

Gilgamés e Enkidu matam o Touro dos Céus

O menestrel de Gilgamés interrompe seu senhor durante o banquete, informando-o sobre a destruição desencadeada pelo touro. Após calmamente terminar sua cerveja, Gilgamés e sua companhia heroica, Enkidu, armam-se e partem para lutar contra o touro. Após encontrar seu adversário, Enkidu agarra sua cauda e Gilgamés desfere nele um golpe com seu machado. A carcaça do touro é subsequentemente dividida; sua carne é distribuída entre os órfãos da cidade, seu couro enviado aos curtidores, e seus chifres transformados em frascos de óleo para derramar sobre Inana em seu templo.

Um estranho episódio ocorre no fim da história. Após Gilgamés e Enkidu matarem o Touro dos Céus, um dos heróis corta a coxa do touro e lança-a para Inana. Em resposta a esse aparente insulto, Inana reúne suas cortesãs e realiza rituais de luto sobre essa parte de seu corpo.

À esquerda: uma perna dianteira de touro é oferecida ao morto; à direita: a constelação egípcia da Perna Dianteira

Há um intrigante paralelo desse misterioso incidente com a tradição mortuária egípcia, na qual a perna dianteira de um touro é uma das principais oferendas realizadas aos mortos (figura anterior). E não pode ser coincidência que os egípcios situavam sua constelação da “Perna do Touro” entre as estrelas da Ursa Maior — na qual os babilônios situavam sua constelação do Vagão funerário.

Como em muitos mitos, há mais nessa história do que fica imediatamente aparente. Quando fazemos uma análise geral, podemos ver que diversos mitos e características rituais passaram por reformulações bem radicais.

Certos incidentes no mito pressupõem uma mudança na relação entre o rei e a deusa. Nos antigos rituais da realeza, Inana se união ao rei na cerimônia do Casamento Sagrado, assim conferindo todos os seus poderes a ele. Mas Gilgamés agora recusa o amor de Inana e transfere sua aliança a Šamaš, o deus solar. Além disso, na época em que as Menologias já tinham sido escritas, os rituais da realeza, nos quais o rei era empoderado e instalado em ofício, eram patrocinados por Enlil e Anu, ao invés de Inana. Também há razão para se pensar que a natureza fundamental do sacrifício tenha mudado de uma oferenda de um animal inteiro a Inana para um alegre banquete comunitário, no qual apenas uma pequena parte do sacrifício (a coxa) era oferecida à divindade.

Tendo em conta todas essas mudanças ritualísticas, devemos também suspeitar que a própria natureza do touro tenha mudado de um “Bezerro de Ouro”, simbolizando o nascimento da estação dos filhotes dos rebanhos, para o furioso “Touro dos Céus” encontrado na história suméria. Tal transformação poderia apenas advir dos efeitos a longo prazo da precessão dos equinócios, a qual moveu progressivamente a data de ascensão da constelação do Touro, antes sendo perto do equinócio da primavera e depois passando a ser no 2.º mês do ano, quando as chuvas começam a diminuir ao sinal do início da estação seca. Isso finalmente explicaria os atributos do touro no mito quando ele destrói as pastagens e bebe os rios até eles secarem.

Mesmo com o Bezerro de Ouro da primavera sendo transformado no furioso Touro do início do verão, seu simbolismo sobreviveu em novas constelações que foram criadas. Mais ao oeste, onde elas corretamente ascendiam por volta da época do equinócio da primavera, as constelações do Cajado e do Homem Contratado eram representadas no mapa estelar por um pastor cuidando de um cabrito e por um cordeiro correndo, respectivamente.

O touro e o portão alado

A mudança de posição do touro entre as estrelas pode muito bem comunicar um distinto motivo artístico encontrado em diversos selos do final do 3.º milênio a.C. (figura anterior). Ele é geralmente chamado de “o touro e o portão alado” por estudiosos modernos, se, claro, for um portão que realmente estiver sendo ilustrado. O motivo é de significado desconhecido, mas a comum aparição de uma estrela em cima da cabeça do touro certamente sugere alusão a um tema astral.

O formato das imagens varia. O touro geralmente se agacha diante da figura de um deus ou deus, os quais, por vezes, seguram uma corda amarrada à argola no focinho do animal. Em outras imagens, um servo pode estar com a corda em mãos, a qual ou está atada ao portão alado, ou sendo segurada pela divindade. Dado que o símbolo da corda amarrada, ou laço celestial, é geralmente aplicado aos solstícios e equinócios, podemos ter nessas ilustrações um registro visual do Touro se afastando do equinócio da primavera.

Símbolo do touro e do portão

Infelizmente, o motivo sai de moda por muitos séculos, e apenas reaparece nas artes astrológicas mais tardias, onde é visto em um selo de Uruque (figura anterior). No mínimo, esse selo demonstra que o “portão” era associado ao Touro nas mentes dos astrólogos do 1.º milênio a.C., mas, no presente, nada mais pode ser adicionado.

A familiar figura do touro pela metade

Um dos aspectos mais confusos do touro celestial é sua representação como imagem de constelação. Nossa imagem moderna de Touro pode ser traçada desde o modelo grego, o qual é invariavelmente representado por um touro corcunda (figura anterior). Ou, também, somente a metade de um touro corcunda, como falta à figura toda sua parte traseira.

Essa imagem reduzida era certamente conhecida na Babilônia na última metade do 1.º milênio, já que os Diários Astronômicos mencionam uma estrela chamada “o início do touro”, a qual apenas faz sentido no contexto dessa figura pela metade. (Similarmente, Ptolomeu refere-se à “linha de estrelas onde [o Touro] está cortado” em seu Tetrabiblos do século II.)

A única imagem certa da constelação babilônica pode ser encontrada nos famosos conjuntos de tábuas de Uruque (figura a seguir). Mas o destino pregou uma peça cruel, pois a área crucial da tábua, a qual conteria a parte traseira do touro, foi totalmente destruída. Portanto, ainda não podemos dizer se o touro originalmente continha, de fato, uma forma completa, ou apenas sua parte dianteira.

O Touro dos Céus, originário de uma tábua do período tardio encontrada em Uruque

À primeira vista, a ilustração geral do Touro de Uruque parece ser bem consistente com a imagem grega, exceto pela ligeira reorientação de sua cabeça. Porém, as outras imagens dessa constelação, desse mesmo conjunto de tábuas, estão todas invertidas da esquerda para a direita, refletindo sua origem como imagens originárias de uma esfera celestial, e quando isso é levado em conta, a imagem não mais é compatível com a figura grega.

Isso é bastante peculiar, pois contradiz diretamente as únicas suposições que poderiam ser feitas em relação à orientação do touro na esfera celestial: que sua cabeça corresponderia ao distinto grupo de estrelas em forma de “V” conhecidas como Híades, e que seu ombro corresponderia ao compacto aglomerado estelar conhecido como Plêiades. Então, nos resta a aparentemente absurda possibilidade de que a figura do Touro esteja propositalmente invertida nas ilustrações astronômicas. Pelo senso comum, essa ideia teria que ser imediatamente descartada, porém o Zodíaco de Dendera também ilustra o Touro dessa forma inusitada.

As constelações gregas em volta do Touro, incluindo Áries, Gêmeos, Órion e a Lebre

As constelações correspondentes encontradas no Zodíaco Circular de Dendera

Comparando as figuras anteriores, podemos ver que o Zodíaco Circular de Dendera, como o modelo babilônico, inverteu a imagem do Touro da esquerda para a direita, e, ademais, fez o mesmo com Áries. Mesmo que as antigas imagens egípcias de constelações sejam notoriamente mal orientadas, não acredito que isso seja um simples erro, mas sim, pelo contrário, uma pista proposital que aponta a algo significativo. Embora esteja fora de alcance entrar nesse assunto em detalhes aqui, eu sugeriria que quem projetou o Zodíaco Circular estava tentando reformular o mapa estelar da Era de Peixes. Ao mudar a localização do Aglomerado Estelar para a região de Peixes, o projetor restaurou a posição tradicional da lua no início do ano.

Em resumo, acredito que o Touro dos Céus era originalmente representado no mapa estelar como um bezerro, o qual simbolizava o equinócio de primavera ainda no 5.º milênio a.C. Na última metade do 4.º milênio a.C., o bezerro de ouro foi provavelmente transformado em um touro adulto, representado pelo pai celestial. Muitos séculos depois, esse grande touro dos céus foi eliminado, e agora era representado nos céus pela figura parcial de um touro que eventualmente foi transmitida para o mapa estelar grego. O Touro foi provavelmente cortado ao meio para acomodar novas constelação ao oeste de si, como o Homem Contratado, e Lulal e Latarak, os quais agora marcavam o início do Ano Novo. As aparições de figuras bovinas completas em artes astrológicas, como o Zodíaco de Dendera, podem ser melhor explicadas como representações de um touro, ao invés de ilustrações precisas da constelação em si.