Origem Babilônica do Zodíaco [11] - Aquário

[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

O precursor babilônico de Aquário é conhecido como Gula, o “Grandioso”. A constelação é geralmente representada como uma figura masculina de pé, às vezes tomando proporções enormes, sempre segurando um ou mais vasos transbordantes em suas mãos.

O deus da água, Enki

Com seus pés firmemente sobre a terra, a gigantesca figura de Gula é maior do que as montanhas. Os vasos que ele segura no alto simbolizam as chuvas férteis que caem dos céus, e os vasos aos seus pés representam o abismo aquático debaixo da terra, a partir do qual os mananciais alimentam rios e córregos.

Como uma constelação sazonal, o Grandioso representa o aumento dos níveis dos rios e da chuva que ocorre durante os meses do inverno. No contexto da agricultura, ele também pode ser entendido como o “irrigador”, cujas águas regam os prósperos campos de cevada no final do inverno. Os campos de cevada são, claro, representados entre as estrelas pela constelação adjacente do Campo.

Para enfatizar sua natureza aquática, as correntes que fluem dos vasos são geralmente adornadas com pequenas imagens de peixe. Na verdade, um desses peixes aparece no mapa estelar babilônico como a constelação do Peixe — ela também foi transmitida aos céus gregos como o Peixe Austral (Piscis Austrinus), onde ele pode ser visto nadando junto aos jorros do vaso de Aquário.

Na arte babilônica, cursos d’água, como rios e riachos, são convencionalmente representados como um par de linhas onduladas, que se acredita ilustrarem as margens paralelas de um rio. Reconhecidamente, a mesma imagem ocorre no sistema de escrita cuneiforme, na forma do símbolo-A (figura a seguir). Esse símbolo, por si só, significa “água”, mas também é usado em numerosas frases que expressam conceitos aquáticos, como rio, inundação, mar ou lago. A forma básica do símbolo evoluiu para a familiar figura do “zigue-zague”, usada atualmente como o glifo moderno de Aquário.

O símbolo-A

Como muitas das constelações que incorporam simbolismo aquático, o Grandioso é intimamente associado com o deus da sabedoria e da água, conhecido como Enki em sumério e Ea em acádio. Um texto astrológico simplesmente afirma que “o Grandioso é o Senhor das Primaveras, Ea”. Na arte antiga, Enki-Ea era geralmente representado com vasos transbordantes em suas mãos ou em volta de seu trono, e, às vezes, ele é visto sentado em um recinto quadrado, o qual se imagina que representa o Abismo.

O Grandioso, extraído de uma pedra de direito

A constelação do Grandioso é escrita como “Mul Gu-la”:

O nome “Gula” é uma escrita silábica que deriva da palavra suméria Gal, a qual significa “grande”. O termo “grandioso” também pode se aplicar a “chefe, ou filho mais velho”, assim como se referir a “uma grande xícara ou tigela”.

Embora o símbolo-Gu seja comumente usado para escrever “fio, barbante, linho”, ele parece representar uma xícara com o sinal de “partilha ou divisão” embaixo.

O símbolo-La, talvez relacionado aos sinais para metais, pode ser usado para escrever “abundância, exuberância, riqueza”.

Embora o nome seja silábico em natureza, os símbolos indicam as abundantes correntes de água que fluem dos vasos do Portador da Água.

A história de Aquário pode ser traçada desde uma figura geralmente chamada de lahmu ou “herói nu”. Ele aparece pela primeira vez na arte do 3.º milênio a.C., onde é, por vezes, representado em ilustrações do “conflito Leão-Touro”. Essas imagens tipicamente o mostram como uma figura benevolente, protegendo os rebanhos de ataques de leões selvagens.

A partir de 2.500 a.C., o herói nu começa a aparecer em novos contextos. Primeiro, ele é visto como um guardião de portão segurando um estilizado batente. Mas é apenas no período acádio, alguns séculos depois, que ele começa a ser associado com o deus da água e faz sua primeira aparição como aguadeiro. No início do 2.º milênio a.C., a iconografia dele já está estabelecida com a familiar forma de um homem de pé segurando um vaso transbordante (figura a seguir). Para enfatizar seu caráter celestial, estrelas são, por vezes, espalhadas em volta dele.

Um Herói Nu com um vaso transbordante

Junto ao aguadeiro masculino, também é possível encontrar uma versão feminina (figura a seguir). Mesmo que o símbolo do vaso transbordante seja portado por uma ampla variedade de figuras divinas e semidivinas, podemos ter certeza que a forma feminina realmente representa o Grandioso, já que seu trono é, às vezes, colocado sobre o Peixe-Cabra. Ademais, há uma pedra de direito que cita uma deusa entronada como a “Grandiosa”. Suspeita-se que a forma feminina é mais antiga, já que o antigo nome divino “Gula” era originalmente aplicado a deusas.

Uma aguadeira feminina

Como outras constelações da eclíptica que ascendem durante o inverno, o Grandioso possui muito poucas profecias explicitamente associadas a ele. Entretanto, os comentários revelam que a “estrela-Rim” pode ser usada como nome alternativo ao Grandioso. Presságios para o Rim tipicamente abordam previsões sobre colheitas e a natureza das inundações vindouras, o que é totalmente coerente com o significado simbólico do Grandioso. Essa identificação provavelmente advém do fato de ambas constelações serem representadas comumente como figuras humanas segurando vasos transbordantes.

As águas celestiais jorram para a terra

Durante o 2.º milênio a.C., o vaso transbordante e várias outras constelações de inverno com simbolismo aquático tornaram-se cada vez mais associadas a Enki. Enki ou Ea era um dos componentes da trindade de divindades reconhecida na tradição babilônica. Ele era amado e respeitado como um sábio e benevolente deus que, muito antes da Grande Inundação, tinha inventado as artes e os ofícios da civilização. Junto com os Sete Sábios, imaginava-se que ele vivia no Abismo de água debaixo da terra, onde ele era assistido por um grande grupo de seres míticos, como monstros aquáticos, sereias e tritões.

A natureza das águas de Enki é enumerada em fontes míticas. De acordo com o poema Sumério Enki & a Ordem do Mundo, quando Enki se aproxima do céu, uma chuva de abundância cai sobre a terra, e quando ele se aproxima da terra, há uma grande inundação de carpas. O poema, então, prossegue identificando Enki com as águas; conta-se que ele tornou os planaltos “perfeitos e verdes em abundância”, e depois fez os “íbex e cabras selvagens unirem-se e copularem”. As águas de Enki geram a prole de todas as criaturas. Quando o Pai Enki “resolve fecundar as vacas, bons bezerros nascerão; quando ele resolve fecundar as cabras, bons cabritos nascerão”. Suas águas, da mesma forma, trazem vida aos campos de cultivo, aos “bons campos em germinação” para que “estoques de comida possam ser acumulados nas altas planícies”. Suas águas sagradas também governam a reprodução humana: “Quando o Pai Enki resolve inseminar pessoas, boa semente nascerá”.

A identificação de Enki e as águas também é vista em seu título de “Pai”. O termo “pai” (Aya) pode ser escrito de muitas maneiras, mas aqui, como geralmente é o caso com Enki, o poema usa a forma “A-A”, escrita com dois símbolos de “água”.

Mais adiante, ainda no mesmo poema, o simbolismo sexual das águas torna-se muito mais explícito. O poema conta que Enki “encheu-se de desejo como um touro desenfreado, levantou seu pênis, ejaculou e preencheu o Rio Tigre com águas correntes”. A “semente viva” que Enki lança no rio é manifestada no vinho doce e na cevada.

O céu, simbolizado por um grande touro, era a fonte de toda a água doce. É por isso que Anu, cujo símbolo principal era o touro celestial, é considerado o pai de Enki. Em um discurso de louvor a si mesmo, Enki revela que ele é a semente do touro dos céus: “Eu sou o bom sêmen, gerado por um touro selvagem, eu sou o primogênito de Anu. Eu sou a grande tempestade que se levanta sobre a grande terra”.