[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]

O Peixe-Cabra é o protótipo babilônico do nosso Capricórnio moderno. Essa criatura peculiar, a qual combina a cabeça e os membros de uma cabra com o corpo de um peixe, é vista pela primeira vez na arte mesopotâmica no fim do 3.º milênio. Presume-se que era uma figura de constelação nessa época, e sua estranha forma tem adornado os céus do inverno pelos últimos 4.000 anos ou mais.

Uma ilustração moderna do Peixe-Cabra

O exemplo mais antigo do Peixe-Cabra a ser descoberto até hoje é datado da Terceira Dinastia de Ur (2168-2050 a.C.). Ele aparece junto a Enki (figura a seguir), o deus das águas férteis. Suas águas trazem vida à terra ao criar todos os habitats naturais e suas vegetações. De acordo com a mitologia suméria, o fluxo de suas águas primeiramente criou os pântanos e todas as suas plantas; depois, espalhou-se pela terra, criando maçãs, uvas e pepinos para os pomareiros e grãos para os agricultores.

Enki com o Peixe-Cabra, extraído de um selo da Terceira Dinastia de Ur

A afinidade mais próxima entre Enki e o Peixe-Cabra se manifesta em numerosas pedras de direito, nas quais a criatura é comumente combinada com outros símbolos astrais associados ao deus, como tartarugas e bastões com cabeça de carneiro.

Apesar da forte afinidade com Enki, textos astrológicos listam como regente do Peixe-Cabra a deusa pouco conhecida chamada Tašmetu. Seu nome deriva da palavra acádia šamû, e pode ser traduzida como “a garantidora de desejos”. Ela é considerada a esposa do deus escriba Nabu, que é o regente da constelação vizinha, o Barco de Carga.

As figuras gregas e babilônicas são quase idênticas. Além da perda ou adição de algumas nadadeiras, a única mudança notável que ocorreu no processo de transmissão foi que a constelação grega acabou com uma cauda bem maior; algumas vezes, ela aparece enrolada, e, em outras, amarrada em um nó.

Capricórnio extraído de um manuscrito árabe

Embora o Peixe-Cabra seja parte do zodíaco, interagindo constantemente com o sol, a lua e os planetas, há pouca informação diretamente associada a ele seja na tradição babilônica ou na grega.

O Peixe-Cabra e um bastão com cabeça de carneiro

Na coleção completa de profecias celestiais, apenas umas poucas estão relacionadas ao Peixe-Cabra. Uma das que sobreviveu descreve a presença de Marte: “Se Marte ficar pelo Peixe-Cabra: devastação de Eridu, seu povo será aniquilado.” A previsão negativa aqui é inesperada, já que se considera o Peixe-Cabra a exaltação de Marte. A solução está no termo “ficar”, que significa que Marte está oscilando em seu movimento retrógrado e permanecendo estacionado sobre a constelação. Um planeta retrógrado, ao tomar o caminho “errado” nos céus, é tido como um mau presságio.

Peixe-Cabra extraído de um selo de Uruque

Astrólogos babilônios superaram a aparente falta de profecias para o Peixe-Cabra dividindo a criatura em duas partes — um peixe e uma cabra — e então aplicando profecias de outras constelações parecidas. Então, na prática, a cabeça do Peixe-Cabra pode ser tratada como a Cabra (uma constelação do norte que corresponde à Lira), cujos presságios descreviam principalmente o bem-estar dos rebanhos. De forma similar, sua cauda pode ser descrita nos termos da constelação de Peixe (correspondente ao Peixe Austral), que é usada para predizer a abundância dos mares e a natureza das inundações. Numerosos exemplos dessa prática podem ser retirados dos Arquivos de Estado da Assíria: “Se Vênus aproximar-se do Peixe: haverá uma derrota na terra — Vênus aproxima-se do Peixe-Cabra.”

Mas os astrólogos não pararam por aí. Outra maneira de referir-se ao Peixe-Cabra, sem realmente mencionar seu nome, era chamá-lo de “Estrela de Ea”: “Se a Estrela de Ea estiver obscurecida: a colheita não será próspera, por 3 anos ... devorará — Mercúrio está esmaecido no Peixe-Cabra.” Como um sinal celestial, um planeta “obscurecido” geralmente é um mau presságio. A profecia negativa aqui deve ser comparada com o seguinte presságio que também descreve a aparição de Mercúrio no Peixe-Cabra: Se o Peixe (o Peixe-Cabra) estiver próximo do Corvo (Mercúrio): peixe e frango serão prósperos — Mercúrio está visível no Peixe-Cabra.”

Mesmo os exemplos supracitados não exaurem a amplitude de profecias aplicáveis ao Peixe-Cabra. Um exame mais cuidadoso das fontes revela que o Peixe-Cabra também pode ser chamado pelo nome de outras constelações, como o Jugo, o Caranguejo e o Rim, embora as razões por trás dessas identificações sejam inteiramente obscuras.

A constelação do Peixe-Cabra é escrita como “Mul Suhur-Maš-Ku”:

O nome sumério foi transmitido ao acádio como suhurmāšu — o “peixe-cabra” mítico.

Apenas as versões mais antigas do símbolo-Suhur parecem representar um par de peixes amarrado num barbante, o símbolo primariamente se referia a uma grande carpa, mas também pode significar um “punhado de folhas” e um “tufo, pluma ou penacho”.

O símbolo-Maš, como o similarmente abstrato símbolo para “ovelha” (Udu), representa um “cabrito ou cordeiro”.

A sequência completa termina com o símbolo-Ku, o qual significa a classe de peixe. O nome inteiro pode, portanto, ser traduzido como “o peixe-cabra”, ou, mais especificamente “a carpa-cabra”.

Como muito pouca informação está diretamente associada ao Peixe-Cabra, se quisermos descrever a natureza simbólica da constelação, teremos que recorrer a outros métodos mais indiretos.

A primeira pista para entender a natureza do Peixe-Cabra reside em seu comportamento calendárico. Na metade para o final do 3.º milênio, quando se acredita que o Peixe-Cabra foi originalmente criado, sua cabeça e chifres ascendiam na época do solstício de inverno, enquanto sua cauda apenas se tornaria completamente visível durante o curso do mês seguinte. Isso tudo sugere que seu caráter era provavelmente relacionado ao simbolismo de renascimento associado ao solstício de inverno.

Mais informações podem potencialmente ser obtidas ao se examinar o Peixe-Cabra no contexto das constelações que o rodeiam no mapa estelar. Há total razão para se acreditar que o Peixe-Cabra é uma das constelações da nova geração, e, se esse for o caso, provavelmente há constelações mais antigas, ainda presentes no mapa estelar, que incorporam o mesmo simbolismo sazonal. Sendo assim, elas oferecem a possibilidade de descrever os diversos elementos do Peixe-Cabra em termos de outras constelações com simbolismo mais bem conhecido. Podemos deduzir que essas constelações mais antigas estariam localizadas atrás da figura do Peixe-Cabra e, em termo de comportamento calendárico, elas provavelmente ascenderiam entre um e dois meses depois.

Dados os termos dessa hipótese, podemos agora ver que o Peixe-Cabra extraiu seu simbolismo do Veado e do Peixe, os quais ascendem nos meses 11 e 12. A cabeça com chifres do Peixe-Cabra é derivada do Veado, que era uma constelação arcaica intimamente associada com as águas celestiais e com o renascimento do sol. Da mesma forma, seus elementos de peixe derivam da constelação do Peixe, cuja história mitológica revela que se pensava que ele resgatava o sol das profundezas aquáticas do inverno e o guiava com segurança até a terra.

Tigela de Samarra com veados e peixes

A ideia de o Peixe-Cabra ter sido criado pela combinação das imagens de constelação mais antigas, no caso o Veado e o Peixe, nasceu da arte antiga onde o veado e o peixe são comumente vistos juntos (figura anterior). Essa tigela de Samarra (cerca de 5.500 a.C.) é a mais antiga representação dessa estranha combinação. Como pode ser visto, a tigela está decorada com quatro veados em um círculo, e entre eles e seus longos chifres há doze peixes irregularmente posicionados.

O tema duplo da besta de chifres e do peixe pode ser traçado ininterruptamente por todo o milênio. É, de fato, um dos pilares da arte antiga, e, em realidade, é provavelmente melhor pensar no Peixe-Cabra como um exemplo específico do mais pervasivo tema do veado-e-peixe.

Um desenho de selo do período tardio de Uruque

Em resumo, podemos agora concluir que o Peixe-Cabra foi criado na metade para o final do 3.º milênio, a fim de simbolizar o sol embrionário do inverno quando ele está habitando as águas cósmicas do Abismo. Em certo sentido, o Peixe-Cabra é o guardião e guia do novo sol; em outro sentido mais direto, o Peixe-Cabra é ele mesmo o embrionário sol aquático do inverno. Nos meses a seguir, ele atravessa as águas celestiais até alcançar a primavera e, com ela, a promessa de renascimento.