Constelações Babilônicas - Parte 5 (Pós-Equinócio de Outono)

[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]


Período do Pós-Equinócio de Outono

Com o decorrer do equinócio de outono, a noite começa a ficar mais longa que o dia, e mais uma vez a escuridão triunfa sobre a luz. Conforme o sol e os “deuses que morrem” descem às trevas do submundo, os espíritos dos mortos viajam pela longa estrada que leva ao reino dos ancestrais. As constelações que ascendem nessa conjuntura sagrada apropriadamente representam os temas de descida às trevas e os guardiões-serpente do submundo, os quais guiam os espíritos dos mortos na direção de seu descanso final entre as estrelas.

Quinto Setor - as constelações ascendendo depois do equinócio de outono

Os céus outonais são dominados pela enorme figura do Escorpião. Seu conjunto de armas levou-o a ser considerado uma criatura que simboliza a guerra e a proeza marcial do rei. Sua natureza venenosa expressa ainda mais os temas de morte e descida ao submundo. Uma temática similar também se reflete na estrela mais luminosa da constelação do Escorpião, a qual é atribuída à deusa chamada Lisi, cujo nome é usado como título genérico de diversas deusas lamentadoras.

[O surgimento das figuras das “deusas lamentadoras” foi um fênomeno motivado por uma época não tão próspera na Mesopotâmia, mais especificamente na Suméria, e os poetas e bardos da região foram incumbidos com a missão de lastimarem as desgraças que haviam assolado suas terras recentemente e, ao mesmo tempo, através justamente do elemento dessas deusas, tentar impregnar uma sensação de esperança e futuro para o próprio povo. Mais sobre isso pode ser lido no artigo The Weeping Goddess: Sumerian Prototypes of the Mater Dolorosa, de Samuel Noah Kramer.]

A natureza mítica do Escorpião dentro dos calendários estelares fica mais claramente articulada no Épico de Gilgamesh, no qual os portões do sol são guardados por um par de pessoas-escorpião. O portão marca o início de um túnel subterrâneo que era utilizado pelo sol durante o curso de cada noite, e foi atravessado por Gilgamesh quando ele visitou os imortais que vivam além dos confins do mundo. Em termos da rota anual do sol nos céus, esse túnel pode naturalmente ser interpretado como simbolizando a descida outonal do sol às trevas do submundo.

A constelação da Balança, a qual era considerada também as garras do Escorpião há muito tempo, é tida como particularmente sagrada ao deus solar, Šamaš. Primeiramente, a Balança simboliza o equinócio de outono, quando a duração do dia e da noite são equivalentes, e o sol nasce exatamente no leste e se põe exatamente no oeste. Em segundo lugar, a Balança simboliza a ideia de prudência judicial, como na frase “pesando as evidências”, a qual é particularmente associada ao deus solar, já que seu principal papel dentro do panteão babilônico era de agir como juiz da verdade e da justiça. Devido a essas razões, acredita-se que a Balança era uma estação especial do sol na astrologia babilônica, na qual ela era propositalmente colocada na posição oposta da estação da lua no Aglomerado Estelar (as Plêiades).

As estranhas figuras com corpo de serpente são chamadas de Deuses Sentados e Em Pé, representando os ancestrais de Enlil. Eles viviam no Monte Sagrado, o qual não era apenas um túmulo em forma de monte cobrindo uma passagem ao submundo, mas também era a fonte de toda a fertilidade terrestre. Vários textos falam dessas criaturas guiando almas desencarnadas à “terra sem retorno”, e outras fontes descrevem elas realizando os deveres de julgar os mortos e determinar seus destinos.

Atrás dos deuses-serpente está a figura de Zababa. Muito pouco se sabe sobre essa antiga divindade além do fato de que ele era um deus guerreiro que estava intimamente associado ao símbolo da águia. Como se sabe tão pouco sobre Zababa, a imagem da constelação oferecida aqui é apenas uma educada suposição.

A estranha figura conhecida como o Cão Louco é formada por uma combinação de elementos humanos e leoninos. Eu acredito que seja um símbolo antigo que originalmente fazia par com o homem-bisão. Juntos, eles constituíam uma imagem do “conflito entre leão e touro”. Esse motivo mitológico representava um incessante conflito sazonal entre o leão do verão que traz a seca, e do outro lado as chuvas férteis que caracterizam os meses de inverno, essas últimas simbolizadas pelo touro. Aqui nos céus outunais, o homem-bisão era representado superando o leão do verão ‒ a vitória dele sobre o leão simbolizava, portanto, o bem-vindo retorno da estação chuvosa. Entretanto, o homem-bisão foi subsequentemente removido do mapa estelar, deixando o Cão Louco como uma lembrança isolada de tempos mais remotos.

[Ao longo da história, essa constelação foi associada a diversos animais selvagens genéricos, mas hoje é conhecido como Lupus, ou “o lobo”.]