[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]


Período do Pré-Equinócio de Outono

A chegada do outono anuncia o início do ano agrícola e acolhe o retorno das chuvas. Todos os tipos de plantas produzem seus frutos, e, ao mesmo tempo em que eles vão caindo na terra e perecendo, suas sementes vão se depositando ali. Os fazendeiros também agem de acordo com os ciclos da natureza, começando a semear seus campos recém-preparados com a cevada da estação que está por vir.

Quarto Setor - as constelações ascendendo antes do equinócio de outono


A abundância outonal da terra é simbolizada pelas deusas duplas da Fronde e do Sulco, que respectivamente representam os dois alimentos mais cultivados na Babilônia ‒ tâmaras e cevada. Tâmaras são especialmente valiosas porque fornecem uma rica fonte de nutrição que é facilmente preservável para uso futuro. A constelação da Fronde, a qual ilustra a deusa Erua com um ramo de tamareira, faz sua aparição anual nos céus quando a folhagem dessas plantas começa a amadurecer.

[A importância da tamareira na economia mesopotâmica era tão grande, que não é de se surpreender que a planta tenha adquirido também conotação mágica, simbolizando e sendo utilizadas em rituais de fertilidade e fecundidade.]

A constelação do Sulco é a precursora da atual constelação de Virgem. A figura babilônica é representada entre as estrelas como a deusa Šala, a qual segura a familiar espiga de cavada em suas mãos. Como símbolo sazonal, ela representa a época de semeadura do outono, quando os fazendeiros aram a terra para o novo plantio.

Durante os meses de verão, as terras em pousio eram preparadas para a vindoura estação de crescimento. Primeiro, removiam-se as vegetações naturais dos campos, antes de nivelá-los, e depois eles eram arados e gradeados para deixar o solo em estado utilizável.

O que pode ser considerado um “calendário rústico” pode ser visto entre as estrelas do outono, onde a constelação da Grade, a qual simboliza a preparação dos campos, ascende na estrela do mês 6. Ela é seguida, no final do mês, pela ascensão do Sulco que inaugura a estação de semeadura.

Monitorando de cima as preparações agriculturais está a figura conhecida como Šupa. Ele representa o alto deus Enlil, e sua imagem celestial enfatiza as duas mais proeminentes facetas da personalidade do deus. Primeiro, ele é o principal deus dos fazendeiros, e por isso segura a constelação do Arado; segundo, ele é o líder do panteão babilônico, e, para indicar sua posição exaltada, ele mantém diante dele o símbolo conhecido como “vara e anel”.

[O símbolo da “vara e anel” era bastante difundido por toda Mesopotâmia, especialmente associado às diversas divindades do panteão daquele povo. A teoria mais aceita é que esses objetos simbolizavam a vida em seus aspectos temporais e eternos. Ou seja, a vara, retilínea, possui começo e fim; já o anel, circular, representa a infinitude. Para mais informações, veja o artigo A New Look at the Mesopotamian Rod and Ring: Emblems of Time and Eternity, de Mary AbramAbaixo algumas representações desse símbolo na arte babilônica:]


O Javali é o símbolo derradeiro dos fazendeiros. O hábito que esse animal possui de  mexer na terra para procurar comida fez com que ele fosse chamado de “agricultor natural”. Ele é, portanto, um símbolo astral adequado para Ningirsu, o filho de Enlil, que, como seu pai, era um dos principais deuses da agricultura da antiga Babilônia.

Os temas agrícolas encontrados no céu de outono giram sempre em torno do simbolismo da semeadura. Embora o plantio da semente acabe causando a “morte” dela, é apenas através dessa transformação que uma nova planta pode surgir. Como metáfora mítica, a morte da semente que se transforma em nova planta pode ser comparada à morte e ressurreição dos “deuses que morrem”, cujo falecimento é apenas um prelúdio para seu inevitável retorno do submundo, trazendo consigo o despertar de toda a abundância da natureza.

O grupo final de constelações encontrado nos céus outonais simboliza o retorno da estação de chuvas. O Corvo é sagrado para Adad, o deus da chuva e da tempestade, e os presságios desse pássaro preveem de maneira apropriada o natureza das chuvas vindouras. No mapa estelar, o Corvo está posicionado sentado no fim da cauda da Serpente ‒ na realidade, ele está esperando a seca do verão chegar ao fim.

A Estrela de Eridu também está relacionada ao retorno das chuvas. Porém, diferente do Corvo que simboliza as chuvas enviadas pelos céus, as jarras transbordantes da Estrela de Eridu enfatizam as águas das nascentes e dos rios retornando com força total após terem diminuído durante o verão.