[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]


Período do Solstício de Verão

O próximo distinto grupo de símbolos é composto das constelações que ascendem durante o verão. Essas estrelas marcam a estação quente e seca, a qual, diferente da Europa, onde o clima é mais ameno, na Mesopotâmia é considerada uma época de morte. Nesse período, as terras são devastadas pela seca e pelas pragas, e até mesmo a própria natureza se torna infértil ‒ as vivificantes chuvas cessam e os níveis dos rios diminuem, a colheita termina e toda a vegetação perece sob o escaldante sol do verão.

Terceiro Setor - as constelações ascendendo por volta do solstício de verão

Conforme o sol se aproxima do seu pico de poder, Dumuzi tem sonhos que pressagiam sua própria morte. Suas premonições tornam-se realidade no solstício de verão, e seus ritos fúnebres são realizados em meio aos choros e lamentos do 4.º mês, imediatamente após o solstício. Conforme Dumuzi percorre o caminho da morte, ele carrega as tristezas dos mundos com ele, até o reino das sombras.

Rituais dedicados aos mortos também dominam o 5.º mês, o qual corresponde ao final do verão. Nessa época, quando o véu entre a vida e a morte está no ponto mais tênue, o festival do grande Braseiro era celebrado. Esse festival comemorava os ancestrais, os quais eram convidados de volta ao mundo dos vivos para uma festividade anual no lar de seus descendentes. Os rituais envolviam acender tochas e braseiros para guiar os fantasmas dos ancestrais para longe da escuridão do submundo.

[O “festival dos mortos” mesopotâmico era conhecido como ne-izi-gâr, que significa “braseiros e tochas”.]

As constelações ascendendo por volta da época do solstício de verão acabam tendo, então, temas de morte, guerra e viagem entre os mundos.


A Serpente é um dos símbolos primários de morte e do submundo. Como sua contraparte grega, a Hidra, a Serpente Babilônica estava a postos nos céus para guardar uma entrada ao submundo. Essa entrada era usada por Dumuzi em seu caminho ao submundo, e também seria a rota mais lógica utilizada pelos fantasmas dos ancestrais quando retornavam à terra para o grande festival celebrado em sua honra no fim do verão. Na tradição babilônica, a Serpente era sagrada a Ningišda, o “Senhor do Submundo”, e quando a própria Morte era imaginada, pensava-se nela com o rosto de uma serpente. A natureza maligna da constelação da Serpente é bastante aparente nas previsões astrológicas, nas quais sua aparição indicava fome, praga e peste vindouras.

É também possível que a Serpente desempenhe um papel sazonal secundário como símbolo da seca do verão. Uma expressão mais clara dessa função pode ser encontrada no mito grego onde sua contraparte, a Hidra, era representada aprisionando as águas subterrâneas e, portanto, causando a seca nas nascentes e a queda dos níveis dos rios.

O Caranguejo também estava intimamente associado com uma entrada ao submundo nas tradições gregas e romanas. Seu papel é parecido na Babilônia, onde alguns textos mágicos até mesmo citam o uso da influência do Caranguejo em rituais destinados a erguer fantasmas do submundo e fazer oferenda aos mortos. Eu acredito que o Caranguejo tenha acabado herdando esses traços sobrenaturais, assim como sua forte associação com os rios, por meio da mais antiga constelação da Serpente.

Os temas do submundo continuam na forma dos Grandes Gêmeos e sua contraparte menor, os Pequenos Gêmeos, que são representados no mapa celestial como guerreiros completamente armados. Os Grandes Gêmeos, em particular, estão intimamente associados com Nergal, o rei do submundo, e um deles é conhecido por viajar entre os reinos dos mortos e os mundos superiores. A função simbólica dos Grandes Gêmeos dentro do calendário estelar era guardar a entrada do verão ao reino dos mortos, a qual estava localizada na região da Serpente e do Caranguejo.

[Nunca ficou claro a quais divindades os dois Grandes Gêmeos estariam associados, alguns textos cuneiformes citando Nabu e Lugal, outros Lugalirra e Meslamtaea, esses últimos, por vezes, também associados aos Pequenos Gêmeos. Outras fontes citam os Pequenos Gêmeos como Alammuš e Ningublaga.

GEORGE, A. R. Babylonian Topographical Texts. 1992. Astrology in Time and Place. CAMPION, N; GREENBAUM, D. G. (eds). 2015.]

O tema de viagem entre os mundos continua com a história do Verdadeiro Pastor de Anu e o símbolo animal que o acompanha, o Galo. Juntos, eles possuem a sagrada função de arautos dos deuses. Seu papel divinamente ordenado era comunicar as mensagens dos deuses aos habitantes de todos os reinos, o que exigia que ambos viajassem entre eles. Entre as mensagens transmitidas estava o destino de Dumuzi e dos outros “deuses que morrem”, que estão agora fazendo seu caminho até o submundo. Como “aquele que foi abatido por uma maça”, o próprio Verdadeiro Pastor já andou no longo caminho dos mortos.

O próprio solstício de verão era representado no mapa estelar na forma de um pássaro sentado em um poleiro alto. O solstício de verão não apenas marcava o mais longo dia do ano, mas também a época em que o sol estava mais alto nos céus. Eu acredito que o pássaro sentado em um poleiro representa o pássaro-solar em seu ponto mais alto da ascensão anual aos céus.

O Leão tem diversos temas inter-relacionados tecidos em sua natureza simbólica. Como rei dos animais, ele naturalmente representa o rei. Como predador feroz, também pode simbolizar guerra e morte ‒ os presságios astrológicos do Leão, em sua maioria, diziam respeito aos infortúnios da guerra e à ocorrência de desastres naturais como a fome. Como símbolo sazonal, ele representa o calor do alto verão ‒ sua juba radiante sendo uma simples metáfora dos imperiosos raios do sol veranil.

A deusa da guerra também é representada entre as estrelas do verão na forma da constelação do Arco. Junto ao Leão sagrado, ela marca o verão como estação da guerra, quando as campanhas iniciadas na primavera finalmente chegavam a um fim. Ela garantia glória e vitória a seus favoritos reais, os quais eram representados nos céus pela Estrela Rei, localizada no peito do Leão.

[A deusa da guerra a qual o autor se refere aqui é Inanna/Ishtar.]