[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]


Período do Equinócio de Primavera

Na época do equinócio de primavera, a luz já superou a escuridão, e os dias agora começam a ser mais longos que as noites, tornando este um momento de celebração da nova vida, quando todas as influências do inverno foram banidas. Nos campos e nas pastagens, a primavera é celebrada como uma época de abundância, tempo em que a maioria dos animais se reproduzem, as colheitas são realizadas e a natureza desabrocha.

A lua nova mais próxima do equinócio de primavera marca o início do Ano Novo. E condizendo com essa conjuntura sagrada está a estação mais associada com o rei, que agora é consagrado e empoderado pelos deuses para governar por um novo período.

Segundo Setor - as constelações ascendendo no equinócio da primavera

Ao contrário do que seu nome pode indicar, o Homem Contratado era representado nos céus pelo familiar carneiro ou cordeiro de Áries. Como símbolo sazonal, o cordeiro reflete o fato da maioria dos cordeiros, cabritos e bezerros nascer nas pastagens nessa época da primavera. Por outro lado, o nome “Homem Contratado” se refere aos trabalhadores que eram contratados para ajudar na colheita da cevada nessa estação. A história da constelação foi propositalmente moldada para refletir assuntos pertinentes tanto aos agricultores como aos criadores de animais. O significado simbólico do cordeiro está melhor preservado na tradição grega, onde ele aparece como um carneiro chifrudo do Velo de Ouro, cuja posse garantia direito ao título de rei. Sua lã radiante claramente indica a natureza solar do cordeiro, que, assim como os símbolos similares do bezerro e do cabrito, representa o sol recém-nascido começando a se manifestar.

[A principal história sobre o Velo de Ouro é o mito de Jasão e os Argonautas, apresentado no poema épico “A Argonáutica”, de Apolônio de Rodes. Basicamente, a história toda é recheada de simbolismos envolvendo o signo de Áries.]

A constelação do Cajado retrata um pastor cuidando de seus rebanhos. Além do óbvio simbolismo pastoral, essas figuras funcionavam também como representações primárias do rei, que guia seu povo e sua nação como os pastores guiam os rebanhos. Como símbolo, o cajado do pastor naturalmente representa os privilégios do rei e seu poder de governar ordenado divinamente. É por isso que o Cajado ascende no primeiro mês do ano, quando o rei é consagrado e empoderado pelos deuses. A figura do rei-pastor é naturalmente associada a Dumuzi, que agora já cresceu e se tornou um jovem, prestes a se casar com a deusa no rito do Casamento Sagrado. Por meio dessa união, o rei/Dumuzi estabelece seu direito de governar e garantir a posterior fertilidade de seu reino.

[O Casamento Sagrado ao qual o autor se refere era geralmente celebrado entre Dumuzi e a deusa Ištar, embora outras regiões da Mesopotâmia celebrassem variações desse rito com deuses e deusas diferentes. O Casamento era encenado em festivais de Ano Novo, dramatizado por meio de um rico simbolismo, e tinha extrema importância para os babilônios, que o consideravam uma espécie de ritual mágico capaz de proporcionar ao povo fertilidade e abundância para seus rebanhos e cultivos. Mais detalhes sobre esse rito podem ser encontrados no artigo The Sacred Marriage in Early Times in Mesopotamia, de E. Douglas Van Buren.]

O Touro dos Céus é provavelmente o mais velho exemplar do tema do pastor e seus rebanhos, que é tão intensamente representado nos céus da primavera. Como símbolo celestial básico, o gado parece representar todos os poderes férteis dessa estação ‒ a mitologia mundial frequentemente relaciona a imagem de touros, vacas e bezerros com uma ampla gama de fenômenos celestes, incluindo nuvens de chuva, raios de sol e o sol nascente. Mais especificamente, o Touro dos Céus sumério é descrito como uma besta destrutiva que desceu dos céus para beber os rios até a última gota e secar toda a terra. Não há dúvida que esses atributos sazonais derivam do fato do Touro dos Céus ascender no 2.º mês do ano, quando a temperatura começa a aumentar e as chuvas começam a diminuir.

O grupo final de constelações da primavera possui um forte significado no calendário, já que se encontram propositalmente na conjunção entre o ano velho e o novo. Nessa época de natural abundância, pensava-se que a terra “se abria” a fim de fornecer suas recompensas. Mas, para a mente arcaica, essa abertura era acompanhada por uma miríade de perigos, sendo o principal deles a potencial ascensão dos mortos, que facilmente ganhavam acesso aos mundos superiores nessa época crucial. À luz dessa crença, eu sugeriria que a constelação do Velho, com seu bastão e uma cabeça profilática, está banindo os fantasmas do ano velho e conduzindo-os de volta para o submundo.

Um conjunto similar de ideias provavelmente incorpora os demônios com cabeça de leão, conhecidos como Lulal e Latarak. Como muitos dos ferozes seres “demoníacos”, a influência deles poderia ser utilizada para exorcizar qualquer tipo de força maligna. Minha sugestão é de que eles agiam como guardiões do ano, banindo qualquer influência que pudesse ter restado do ano antigo e purificando o início do novo ciclo do calendário.

[Demônios, monstros e espíritos malignos eram parte integrante da religião mesopotâmica, e geralmente eram representações de doenças, epidemia e desgraças que poderiam prejudicar as plantações e os rebanhos dos trabalhadores.]