[O presente artigo foi retirado do livro Babylonian Star-Lore, do escritor Gavin White, e cedido para tradução com autorização do mesmo. Recomendamos aos que se interessarem pelo assunto que consultem a obra na íntegra para mais detalhes (https://www.amazon.com.br/Babylonian-Star-Lore-Illustrated-Star-Lore-Constellations-dp-0955903742/dp/0955903742/ref=dp_ob_title_bk).

O objetivo desta série de artigos é mostrar como os babilônicos determinaram a simbologia das constelações através dos mitos que permeavam sua cultura. Esse tipo de análise servirá como base para mostrar a origem dos Signos do Zodíaco e seu desenvolvimento até os dias atuais.

Ao longo deste artigo, fiz alguns comentários para elucidar alguns aspectos do texto original. Deixei tudo entre colchetes para tornar claro que é uma observação minha, e não do autor Gavin White.]


Período Pós-Solstício de Inverno

Ao contrário dos familiares sistemas de calendário do Antigo Oriente-Próximo, os quais se iniciam na primavera, o ciclo simbólico incorporado pelas estrelas faz mais sentido quando se começa e termina com o solstício de inverno. Quando a noite mais longa é celebrada, a energia do sol está em seu ponto mais fraco, e o astro está em sua estação mais baixa e meridional nos céus. Mas o ponto de inflexão crucial foi atingido, e desse momento em diante, a luz e a energia do sol aumentam dia após dia. O período que segue posterior ao solstício de inverno, portanto, celebra o renascimento do sol das águas do caos, e a reemergência da vida, em todas suas múltiplas formas, do reino da escuridão e da morte.

Primeiro Setor - as constelações ascendendo após o solstício de inverno

Como símbolos míticos, o Cavalo e o Veado representam o renascimento do sol. Isso é visto de forma mais clara na mitologia do Cavalo, cujo principal dever mítico era puxar a carruagem do sol. A carruagem do sol, em última análise, governa os três maiores ciclos do tempo reconhecidos na mitologia ‒ a ascensão da carruagem anuncia o nascer de todos os dias; sua ascensão anual após o solstício de inverno inaugura o Ano Novo; e, em termos do ciclo completo da criação, sua ascensão celebra o nascimento original do sol das águas cósmicas. O Cavalo provavelmente foi escolhido para esse papel exaltado por causa de sua velocidade e sua crina cintilante, que acreditava-se representar os radiantes feixes de luz solar.

O Veado é, em muitos aspectos, um símbolo muito similar ao Cavalo. Ele também tem uma associação bastante antiga com as águas celestiais e com o sol, e, como a crina do cavalo, suas galhadas também representam os raios do sol. A renovação anual de suas galhadas é mais uma predisposição para que seja um símbolo de renascimento, e na forma do Trenó de Rena do Papai Noel, o Veado ainda é honrado até os dias atuais como símbolo da passagem invernal do sol. Como símbolos do renascimento solar, o Cavalo e o Veado são, portanto, símbolos muito apropriados para se encontrar no início do calendário estelar.

[Os veados não são nativos da região da Mesopotâmia, mas passaram a fazer parte dos mitos desse povo devido à transação comercial que ocorria com a região da Anatólia, ao norte, na qual era mais comum encontrar esses animais.

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A pesquisa de Paige Chandler, Stags in the Sumerian Royal Tombs and their Anatolian Connections (https://core.ac.uk/download/pdf/54845567.pdf), explica como o intercâmbio comercial entre as duas regiões passou a se tornar também um intercâmbio cultural, e o símbolo do veado começou a permear a cultura mesopotâmica como símbolo solar e da fertilidade, da mesma forma que já era tratado na Anatólia.]

O mesmo tema de renascimento solar é expresso de forma um pouco diferente na constelação adjacente, conhecida como Anunitum, a Andorinha e o Campo. Essas figuras estelares constituem juntas uma representação vívida do mito da deusa Síria, que pode ser pensado como o mito-mestre dessa estação. O mito conta o seguinte: dois peixes encontraram um enorme ovo flutuando nas profundezas do rio Eufrates. Os peixes tiraram o ovo do fundo do rio e o trouxeram até a terra seca, onde uma pomba apareceu e começou a chocá-lo. Com o tempo, a própria deusa Síria nasceu do ovo. Devido a esse mito, peixes e pássaros eram considerados sagrados particularmente à deusa Síria.

[Para mais informações sobre a deusa Síria, a obra De Dea Syria, ou “Sobre a Deusa Síria”, escrita por Luciano de Samósata, no século II, é um amplo estudo sobre esse mito (https://www.sacred-texts.com/cla/luc/tsg/index.htm).

É interessante notar que a deusa Síria é assim denominada por não possuir um nome específico, pois simboliza uma divindade feminina suprema adorada na região do Antigo Oriente-Próximo, a qual tomou diversas formas, como Atargatis, Derketo, Inana e Istar. Acredita-se que ela é uma das origens do “culto à deusa” que sobrevive até os dias atuais.]

O mapa estelar indica que a localização do mito e seus participantes, na verdade, não estão nesta terra, mas podem ser encontrados nos céus. O que é de fundamental importância é a identidade do rio Eufrates. Além do rio terrestre, o “Eufrates” pode também ser encontrado no mapa estelar, onde está intimamente associado com a efusão de água que saí da Andorinha. Esse rio celestial corre em curso paralelo à eclíptica (representada pela linha pontilhada do mapa principal), e, agora que estabelecemos esse fato, a ação dos peixes pode ser melhor compreendida ‒ eles escoltam o sol (o ovo mítico) de seu ponto mais baixo do solstício e o guiam em seu caminho de ascensão que leva até a primavera e à “terra seca”, que é representada no mapa estelar pelo Campo. O mito como um todo pode agora ser entendido como uma metáfora da passagem do tempo, que nos guia da escuridão do inverno até o despontar da primavera.

Continuando no tema “aquático”, nosso próximo encontro é com os equivalentes babilônicos de Capricórnio e Aquário, conhecidos como Peixe-Cabra e o Grandioso. A natureza composta do Peixe-Cabra é melhor compreendida em termo do simbolismo que já examinamos. Em resumo, eu argumentaria que é, essencialmente, uma combinação do Veado e dos Peixes. O Veado representa a renovação da energia solar no solstício de inverno, enquanto os Peixes agem como guardiões do sol nascente, o qual eles guiam em seus primeiros estágios de ascensão.

O simbolismo de água continua com a figura conhecida como o Grandioso, o nome babilônico para o nosso Aquário. Como símbolo sazonal, o Grandioso com suas jarras transbordantes simboliza o aumento das chuvas e das inundações do inverno e do início da primavera. Junto com a constelação do Campo, que representa um lote arável de terra, o Grandioso pode ser pensado como o “Irrigador” ‒ já que a ascensão dessas constelações marca a época quando a cevada madura é irrigada antes da colheita de primavera.

Embora a localização precisa do Suíno ainda seja questão de debate, é muito provável que sua estrela seja encontrada no setor de renascimento do mapa estelar, já que é atribuída ao deus Damu, cujo nome pode ser traduzido como “filho”. Textos míticos retratam Damu como um dos “deuses que morrem”, intimamente relacionado com Dumuzi (o “Verdadeiro Filho”).

[“Deuses que morrem” se refere a um motivo mitológico catalogado pelo folclorista americano Stith Thompson com o termo “morte ou partida dos deuses”. Não quero me estender muito nisso, mas dentro do campo da mitologia comparada, são analisados os vários elementos narrativos se repetem em diferentes culturas, e, nesse caso de Dumuzi, se refere à narrativa de um deus que acaba morrendo, seja qual for o motivo, mas que eventualmente retorna. Seus elementos podem ser comparados com  Baldur, na mitologia nórdica, e com Quetzalcoatl, na mitologia asteca, apenas para citar alguns exemplos.

É importante deixar claro que Damu e Dumuzi não são coisas separadas, mas sim aspectos de um mesmo deus. Para mais detalhes sobre a simbologia dessa divindade, o artigo Towards the Image of Tammuz, de Thorkild Jacobsen, cobre o assunto de forma bem ampla.]

Dumuzi desapareceu da terra, e sua mãe e irmã ficaram de luto. Mas, como todos os “deuses que morrem”, ele eventualmente retorna à terra, e, fiéis à forma, os mitos relatam que ele escapou do submundo por meio de um rio.

No fim das contas, o simbolismo das constelações que surgem após o solstício de inverno concordam em representar uma época de renascimento do sol após a escuridão do inverno, e o início de sua ascensão nos céus. De maneira similar, no desenrolar do ciclo de vida do “deus que morre”, Damu (o “Filho”) escapa do submundo e começa a fazer seu caminho de volta ao mundo superior.

A imagem da criança fugindo do submundo, e do sol nascente repousando nas águas, pode também ser interpretada em termo humanos como o feto que habita as águas da criação do ventre materno. A multiplicidade de imagens relaciona-se a uma verdade essencial: que a vida, em todas as suas inúmeras formas, toma forma dentro das águas da criação.