Concentração e visualização: bases do treinamento mágico?

Não é segredo para ninguém que já tentou iniciar um treinamento em magia prática que qualquer programa de exercícios, na maioria dos sistemas mágicos, começa com dois elementos base: concentração e visualização.

A concentração geralmente é apresentada na forma de meditação. Instrui-se o iniciante a observar seus próprios pensamentos passivamente, concentrar-se sobre uma ideia ou objeto em específico e evitar desviar o foco, ou a simplesmente manter a atenção totalmente sobre a própria respiração. Enfim, são diversas variantes, mas todas com um mesmo objetivo: fazer você morrer de tédio fazer você aprender a se concentrar apenas naquilo que está acontecendo no momento presente!

Já no âmbito da visualização, temos exercícios um pouco mais “divertidos”, na maioria dos casos. Desde fechar os olhos e imaginar objetos simples na sua frente até fazer rituais inteiros envolvendo formas geométricas tridimensionais e seres exuberantes à sua volta. No fim das contas, para fazer uma visualização apropriada, é necessário se concentrar, então os dois tipos de exercícios acabam complementando um ao outro.

Muitos iniciantes na magia têm como seu primeiro ritual o “Ritual de Banimento Menor do Pentagrama” (RBmP), recomendado por muitas correntes mágicas como uma maneira eficaz de limpar o ambiente em que você realiza suas práticas, e ao mesmo tempo treinar as disciplinas da visualização e da concentração. Realmente, é um meio excelente de trabalhar essas importantíssimas qualidades para o desenvolvimento de qualquer magista, e apresenta uma maneira de treinar sem cair na chatice de exercícios que não tem um cunho ritualístico e que acabam fazendo o aspirante se entediar, decepcionado com sua visão do que seria a magia, e fazendo com que o mesmo simplesmente abandone suas práticas em questão de semanas.

Quando eu era iniciante, fazia muitos desses exercícios mais simples, mas sempre por disciplina, e nunca por entender exatamente aonde iriam me levar. Claro que, quando comecei a fazer meus primeiros rituais, percebi que tinha dificuldades em me concentrar, então comecei a treinar com mais afinco a questão da meditação, e as coisas foram melhorando. Chegou um momento em que os sucessos começaram a vir, e eu simplesmente disse: “sou bom o suficiente, nunca mais preciso voltar para esses exercícios tediosos de novo”. E, de fato, continuei apenas com práticas rituais, e os sucessos continuaram a vir.

Talvez você esteja lendo e achando que eu vou chegar no ponto onde digo: “concentração e visualização são perda de tempo, fique apenas fazendo seus rituais e você vai ficar bom o suficiente”. Bem, eu confesso que em certa altura de meu desenvolvimento mágico, eu comecei a pensar dessa forma. Comecei a achar que grande parte do que eu tinha feito tinha sido um desperdício, e que eu deveria ter logo iniciado com evocações e com o tempo eu ficaria bom, simples assim.

Entretanto, tudo mudou quando, após anos de tentativas, finalmente consegui minha primeira projeção astral. Quando me vi fora do corpo nas primeiras vezes, logo percebi que a sensação não durava muito mais que segundos. Eu até tentava me locomover, tentava me transportar para outro local, e também cheguei a tentar fazer RBmPs no astral. Os resultados foram desastrosos. Mal conseguia fazer a Cruz Cabalística, e estava de volta no meu corpo. Sim, a visualização era maravilhosa, e finalmente ver diante de mim um elemento que, até então, eu apenas “imaginava” durante os rituais, era simplesmente incrível. Mas era só isso. Nunca conseguia terminar o que começava, e se tentava viajar pelo plano astral, só retinha memórias vagas e dispersas do que tinha acontecido. Isso ocorria porque eu tinha negligenciado as mais importantes disciplinas da prática mágica.

A concentração e a visualização não servem para você fazer seus rituais no dia-a-dia, pois isso é fácil, e se, mesmo nunca tendo treinamento mágico algum, você quiser fazer isso hoje, você consegue. Pode ser que você não seja capaz de ver todos os elementos ao mesmo tempo, pode ser que erre a ordem dos nomes de Deus, pode ser que fique uma porcaria, mas você vai começar e depois vai terminar. Os resultados vão ser invisíveis no astral, mas o ritual foi concluído.

Agora, no astral não há tempo para seu pensamento se desviar do pentagrama e se deslocar até uma preocupação qualquer do seu trabalho, por exemplo. Seja qual for a distração, por menor que seja, você vai perder tudo o que está fazendo, e ou vai voltar para seu corpo, ou vai perder a consciência e apenas sonhar, ou vai se transportar para outro local totalmente diferente.

A concentração e a visualização foram feitas para que você treine, treine e treine, pois um dia você vai conseguir sair do corpo e utilizá-las de forma passiva para se deslocar no plano astral. Se você, como eu, negligenciar isso no início da sua prática, infelizmente, terá que dar não um, mas diversos passos para trás, começar o treinamento lá da casa zero, e aí sim perder seu tempo com coisas que poderiam ter sido feitas e dominadas lá atrás.

Então, meu caro iniciante, não esqueça de fazer uma rotina baseada nesses dois elementos. Você não vai gostar, pois não foram feitas para serem divertidas, e todo mundo sofre para seguir com essas práticas. E, talvez, agora possamos chegar a uma conclusão bem esclarecedora: as bases da magia não são a visualização e a concentração, mas sim um elemento único, a disciplina.