Os primeiros humanos 

Nas sociedades primitivas, é fácil notar o quão importante eram os astros, principalmente o sol. Afinal, era à luz dele que os humanos podiam buscar comida, empreender longas jornadas, ver seu calor dando vida aos arredores; porém, quando este se escondia no horizonte, a noite trazia diversos perigos e a necessidade de se abrigar, de se esconder.

Logo, foi completamente natural que concedessem um caráter mítico e divino a esse astro tão misterioso a eles na época. Não conseguiam entender de onde ele vinha, e porque se escondia em dado momento. Também não compreendiam o que era a Lua ou as infinitas estrelas que preenchiam o vasto céu noturno. Histórias foram sendo contadas ao redor da origem e do propósito de todos esses elementos, preenchendo o folclore e a religião de muitas civilizações que foram posteriormente se formando, cujas lendas persistem, em muitos casos, até os dias atuais.

O culto astrológico, então, ocupa espaço em praticamente todas as sociedades primitivas. Os mitos que envolvem a criação dos astros possuem caráter de imortalidade, onipotência, atos heroicos, variando consideravelmente de acordo com o local em que se desenvolviam.

Entretanto, o ponto chave para a astrologia surgir no nosso mundo não foram as lendas em volta da criação dos misteriosos corpos celestes, mas sim a necessidade que o ser humano desenvolveu de seguir uma marcação temporal. Era necessário saber quando o sol iria se pôr para não se distanciar de um local seguro nas últimas horas do dia, era necessário saber quando a estação fértil iria chegar para aproveitar ao máximo o plantio e as colheitas, era necessário saber quando a lua estaria cheia novamente e as marés propícias para a pesca. A partir disso, temos o surgimento do calendário, que nada mais é do que um estudo astronômico, que na época não se diferenciava da astrologia como nos tempos modernos.

Os calendários de cada civilização tinham diferentes graus de sofisticação, reflexos de especificidades de sua cultura e de seu entendimento de mundo. Por exemplo: na atual Grã-Bretanha, os megálitos construídos pelos povos antigos eram uma espécie de ferramenta para entendimento dos períodos de solstício e outros importantes eventos astronômicos; já os povos mesoamericanos pré-colombianos, em sua maioria, registravam a passagem dos dias em dois calendários distintos, mas cuja contagem acontecia simultaneamente.

À esquerda: página 11 do Codex Borbonicus, México; À direita: Stonehenge, Reino Unido.

A Babilônia

Um dos pontos mais importantes para o nascimento da astrologia como conhecemos hoje foi no reino da Babilônia.

A região do crescente fértil no Oriente Médio foi o local onde os humanos adotaram práticas sedentárias pela primeira vez, desenvolvendo ali a agricultura, uma atividade que provou-se dependente de várias informações que eram fornecidas pelas estrelas e pelos astros do céu. Além disso, a estabilidade dos humanos fez com que surgissem governos e, consequentemente, religiões e templos. Seus sacerdotes foram os responsáveis por iniciar um estudo meticuloso dos padrões celestes, definindo as bases para a astronomia e a astrologia modernas.

Os sacerdotes babilônicos fizeram uma importantíssima descoberta em seu tempo: além do Sol e da Lua, existiam outros cinco planetas observáveis no céu, sendo eles os quais chamamos hoje de Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

Se considerarmos que, naquela época, não existiam instrumentos precisos de observação do céu, ou seja, dependia-se apenas de observação a olho nu e aparelhos limitados, essas descobertas são muito dignas de nota. Claro que, também naquela época, não havia o problema que temos hoje de iluminação artificial ofuscando a visão noturna, sem contar que a Babilônia em si ficava próxima do Golfo Pérsico, um local privilegiado por céus extremamente limpos.

Os sacerdotes construíram torres em locais planos, e faziam observações diariamente para tentar entender as correlações entre os movimentos dos astros celestes e de eventos notáveis no mundo ao seu redor. O conhecimento reunido por esses estudiosos foi posteriormente compilado numa coleção de escritos conhecida como Enuma Ann Ellil, que foi preservada pelos assírios após conquistarem a Babilônia.

É interessante notar que a astrologia babilônica incorporava fórmulas matemáticas em suas previsões. Um bom sinal combinado com outro bom sinal, significa uma previsão positiva (+ + = +); um bom sinal combinado com outro mau sinal, significa uma previsão negativa (+ - = -); e um mau sinal combinado com outro mau sinal, significa uma previsão positiva (- - = +). Um planeta positivo brilhando: favorável (+ + = +; um planeta positivo apagado: desfavorável (+ - = -); um planeta negativo brilhando: desfavorável (- + = -); e um planeta negativo apagado: favorável (- - = +).

No início do desenvolvimento da astronomia/astrologia, os babilônios consideravam os astros como deuses por si próprios, mas conforme a religião se tornou mais sofisticada, essa mentalidade mudou e eles começaram a acreditar que os deuses apenas influenciavam seus respectivos planetas, ou seja, movimento, aparição e posição dos corpos e fenômenos celestes eram tratados como meros “sinais”. Não fica claro, através de indícios históricos, se esses sinais eram considerados divinos, ou se eram apenas uma espécie de superstição.

Bem, falamos dos planetas, mas e quanto às estrelas? A observação que os babilônios fizeram das estrelas foi o que deu origem ao que hoje conhecemos como zodíaco.

Primeiro, voltamos a questão da necessidade de marcar o tempo, principalmente a longo prazo. Os babilônios observaram as estações e também entenderam que o verão tinha um ponto alto e o inverno tinha um ponto baixo (os solstícios), e entenderam que havia um ponto médio entre verão e inverno (equinócio de outono) e outro ponto médio entre inverno e verão (equinócio de primavera).

Fonte: McIntosh (1969)

A imagem acima ilustra o planeta Terra, no qual a Linha do Equador se coloca como a divisão horizontal imaginária do mundo pela metade, e a eclíptica demonstra o movimento do sol em volta da esfera. Quando o movimento do sol encontra a Linha do Equador, temos o equinócio de primavera (E1) e o equinócio de outono (E2). Já quando a eclíptica traçada pelo sol atinge seu ponto máximo (S1), temos o solstício de verão, e quando atinge seu ponto mínimo (S2), o solstício de inverno. Isso para quem vive no hemisfério norte, pois se estivermos falando do hemisfério sul, a ordem é inversa.

Outra observação notável que os babilônios fizeram foi do ciclo lunar. Eles perceberam que durante esse período de um ano observado pelo ciclo do sol, a lua passava por doze ciclos. Logo, naturalmente dividiram o ano em doze partes.

Agora, chegamos em um ponto muito curioso. Como eles iriam identificar cada uma das partes do ano? A resposta estava nas estrelas, literalmente. Eles identificaram doze constelações ao longo da eclíptica, e associaram cada uma delas com um mês diferente. Eis a origem do sistema zodiacal.[1]

Muitos ainda acreditam que os nomes das constelações surgiram porque os babilônicos identificaram o desenho de animais no formato delas. Mas, cá entre nós, é um pouco complicado ver uma forma minimamente clara assim num amontoado de estrelas. A teoria mais aceita entre estudiosos é que os nomes surgiram devido a símbolos mitológicos que foram então atribuídos às estrelas daquelas constelações.

Mas, então, como eles atribuíram esses símbolos específicos a cada constelação? Qual era o significado por trás de, digamos, Áries [2], um carneiro, ser o signo que simbolizava a passagem do sol sobre aquela constelação no período do equinócio da primavera? Bem, primeiramente, devemos ter em mente que o Sol foi escolhido como referência para a “montagem” do zodíaco, simplesmente porque era o astro mais importante às civilizações daquela época, e a partir disso foram sendo traçados paralelos culturais e associações foram sendo aplicadas para simbolizar aqueles períodos da passagem do sol sobre determinada constelação.

Bem, com esse sistema rústico, os astrólogos babilônicos passaram muitos e muitos anos fazendo previsões em relação ao bem-estar público do Estado e do rei. Isso incluía eventos meteorológicos importantes também, como inundações, mas também previsões sobre a colheita vindoura, possíveis rebeliões, ou até mesmo guerras.

Foi somente no período entre 600 e 300 a.C. que o sistema astrológico babilônio começou a ser utilizado para a construção de horóscopos natais. Os registros propriamente babilônios desse tipo de prática, infelizmente, são bastante escassos, embora valiosos. A maioria dos relatos sobre isso veio de escritores gregos e romanos de um período bem posterior. De qualquer forma, foram eles que estabeleceram a base da leitura de cartas natais, que é utilizada até hoje, com algumas modificações que foram surgindo com o passar do tempo, claro.

Considerações finais

Um dos argumentos que tem sido utilizado há tempos para defender a ideia de que “astrologia não funciona”, especialmente por pessoas que nunca se deram ao trabalho de pesquisar sobre a história desse sistema divinatório, é que as constelações mudaram de lugar com o passar do tempo, e, portanto, os signos estão todos trocados e tudo isso é uma grande bobagem.

De fato, as constelações mudaram de lugar, e isso se deu através de um fenômeno chamado “precessão dos equinócios”, algo produzido pela própria força da gravidade. Porém, na astrologia ocidental, as constelações apenas foram tomadas como referência para nomear as doze divisões do céu chamadas de “signos”, espaços simbólicos que não estão estritamente relacionados às estrelas fixas, e é pouco importante se hoje ambos encontram-se desalinhados. Falei sobre isso no Divagando #03 - Uma Introdução à Astrologia.

Na Astrologia Oriental, a precessão dos equinócios é levada em consideração, e o zodíaco foi modificado com base no movimento das estrelas fixas. Existem diversas disputas e controvérsias entre os defensores de ambos os lados, mas ouso dizer que ambos funcionam, devido aos diferentes focos e visões de mundo que ocidente-oriente possuem, mas estaria desviando demais do assunto se entrasse nisso agora...

Para o próximo post sobre astrologia, estarei trazendo, de forma detalhada, a explicação sobre as constelações babilônicas, criando uma base sólida para a compreensão da simbologia dos doze signos do zodíaco, que será tratada mais à frente...

[1] Na verdade, o “caminho da lua” indicado nas antigas tábuas babilônicas do MUL.APIN indicava 17-18 constelações, e em algum ponto da história isso foi reduzido a 12, embora não se tenha uma explicação do porquê (BOXER, 2020);

[2] Na verdade, nem foi esse o nome dado pelos Babilônios a esse signo, é apenas um exemplo.

Referências

  • BOXER, A. A Scheme of Heaven. 2020.
  • KOCH-WESTENHOLZ, U. Mesopotamian Astrology. 1995.
  • MCINTOSH, C. The Astrologers and their Creed. 1969.
  • ROGERS, J. H. Origins of the ancient constellations: I. The Mesopotamian traditions. 1998.