Aqueles familiarizados com um dos rituais mais básicos e difundidos da prática mágica, o Ritual de Banimento Menor do Pentagrama (RBMP), com certeza já se depararam com as menções aos quatro arcanjos utilizados para proteger o círculo e o magista que atua de dentro dele.

Creio que, mesmo os que nunca tiveram qualquer aproximação com a magia, pelo menos ouviram em algum lugar os nomes dos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, já que eles são bem presentes na religião católica, e alguns deles também têm seu espaço em outras vertentes espirituais influenciadas pela Bíblia ou com sincretismo cristão.

A ideia de escrever esse texto (e os subsequentes), porém, foi por causa do RBMP. Apesar de realizar há praticamente uma década esse ritual regularmente, eu nunca me dei ao trabalho de pesquisar a fundo sobre o simbolismo dos arcanjos aos quais eu confio a minha própria proteção. Claro que, sempre vale lembrar que, durante o RBMP, não são os arcanjos propriamente ditos que são evocados, e sim formas astrais baseadas nesses símbolos clássicos de guarda, a fim de dar um senso de proteção maior ao magista durante sua operação. Porém, isso apenas reforça a necessidade de entender melhor a história dessas figuras e, através da obtenção de maior conhecimento sobre elas, fortalecer ainda mais o poder que elas carregam durante um banimento.

Por isso, nos últimos meses, estudei a fundo sobre cada um dos arcanjos, e, claro, por que não transformar essas informações em um texto conciso que possa ser aproveitado tanto por outros magistas, como também por qualquer um que queira entender mais sobre esses seres e o que eles representam.

O primeiro desses artigos você confere hoje, tratando do arcanjo Rafael, rotineiramente evocado no quadrante leste, correspondendo ao elemento do ar. O astrólogo italiano Pietro d’Abano, o qual acreditava que cada planeta exercia sua influência no universo por meio de um anjo, relacionou Rafael a Mercúrio. Outra correspondência importante para se ter em mente é a relação desse arcanjo com a cor amarela, ressalta por Aleister Crowley no Liber 777.

Apesar de Rafael ser bastante conhecido atualmente, ele nunca fez parte do grupo mais famoso de anjos, pois seu nome só aparece pela primeira vez no Livro de Tobias, uma das escrituras deuterocanônicas (ou seja, aprovada somente pelo Cristianismo, mas não pelo Judaísmo e pelo Protestantismo), isso por volta do século III ou II a.C. Significando algo como “Deus cura”, Rafael também foi mencionado em torno da mesma época no apócrifo Livro de Enoque.

A tradução do nome do arcanjo fica mais clara quando se conhece a história da qual ele é personagem justamente no Livro de Tobias: já velho e cego, Tobias envia seu filho, também chamado de Tobias, para receber de volta o dinheiro de um empréstimo feito a muito tempo a um parente. O rapaz precisa percorrer um longo caminho para chegar à casa do familiar, e em sua jornada é acompanhado por seu cão e também por um homem chamado Azarias, viajante experiente. O encontro com Azarias é oportuno, pois quando o jovem está prestes a partir, o viajante se apresenta para acompanhá-lo, garantindo aos pais do rapaz que irá protegê-lo durante o trajeto.

Acontece que Azarias era justamente o anjo Rafael disfarçado. Quando eles param em um rio durante a noite, Tobias decide se lavar, mas é mordido por um peixe. Azarias rapidamente sugere que ele pegue o peixe e tire dele o fel, o coração e o fígado, pois podem servir de remédio.

Mais adiante em sua jornada, Tobias encontra o familiar e recebe o dinheiro. Porém, não contava que também conheceria uma mulher chamada Sara, pela qual acaba se apaixonando. Contudo, Sara tem um triste passado, pois seus sete maridos faleceram, todos antes da noite de núpcias. Tobias, porém, não tem medo, e pede a jovem em casamento, situação na qual Azarias intervém e aconselha-os a passar suas três primeiras noites de casamento em castidade e oração, e também queimar o coração e o fígado do peixe, pois sua fumaça expulsará o demônio que atormenta Sara.

Após serem bem sucedidos nesse feito, os dois jovens casados voltam para a casa de Tobias, onde ele reencontra seu pai. Novamente com a orientação de Azarias, Tobias passa o óleo do fel do peixe nos olhos do pai, e maravilhados veem sua cegueira ser curada. Também é aqui que Azarias se revela com o anjo Rafael para o pai e o filho.

A aceitação pela Igreja Católica do Livro de Tobias popularizaria a história do jovem, e muito tempo depois, especialmente durante o Renascimento, faria com que vários jovens viajantes e comerciantes se identificassem com a trama, fazendo surgir cultos a esse arcanjo aqui e ali pela Europa. A oração e a simpatia for Rafael provavelmente serviu para impulsionar a ideia que temos hoje de “anjo da guarda”.

Posteriormente, Rafael foi identificado como um dos mensageiros divinos do Gênesis (18, 1-2) durante visita a Abraão, e também como o anjo que aparece em Betesda numa passagem mencionada no Evangelho de João (5, 2-4). Nesta última, não é surpresa a associação quando se observa seu conteúdo, totalmente relacionado com a habilidade de cura:

“Porquanto um anjo descia em certo tempo ao tanque, e agitava a água; e o primeiro que ali descia, depois do movimento da água, sarava de qualquer enfermidade que tivesse.” (João, 5, 4)

No Livro de Enoque, Rafael é declarado como “um dos guardiões”, e também como “guia no submundo”. Ele é “uma das quatro presenças, presidindo sobre todas as doenças e feridas dos filhos dos homens”.

A literatura cabalística judaica também exalta os poderes de cura de Rafael, como em passagem do Zohar que indica ser ele “encarregado de curar a terra, e através dele a terra se torna a morada dos homens, os quais ele também cura de suas enfermidades”.

Ainda enveredando pela cabala, mas com um viés mais mágico, alguns ocultistas modernos, como Damian Echols, situam Rafael como o arcanjo que habita o coração da Árvore da Vida: a esfera de Tiphareth. Como todas as energias das outras esferas passam por Tiphareth, a cura realizada por Rafael, da mesma forma, é enviada para todos e recebida por todos. Não é o objetivo desse artigo entrar muito a fundo nesse simbolismo cabalístico, mas aqueles interessados pelo assunto podem verificar por obras mais específicas sobre a Árvore da Vida que esse simbolismo solar associado a Rafael faz bastante sentido, embora não haja consenso formal sobre isso, e alguns ainda associem o arcanjo Miguel a Tiphareth.

REFERÊNCIAS:
* CROWLEY, A. Liber 777. 1909. Disponível em: <https://www.hadnu.org/publicacoes/liber-777>.
* DAVIDSON, G. A Dictionary of Angels. 1967.
* ECHOLS, D. Angels and Archangels - A Magician's Guide. 2020.
* MENDONÇA, F. P. S. Anjos planetários e o mundo sublunar: Trithemius, astrologia e política nos séculos XV e XVI. 2019. Disponível em: <https://www.redalyc.org/journal/5524/552459276010/html/>.
* METZGER, B. M.; COOGAN, M. D. The Oxford Companion to the Bible. 1993.
* MOTA, P. T. O Arcanjo Rafael e Tobias, na História da Arte e no Caminho das Almas. 2017. Disponível em: < https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/06/o-arcanjo-rafael-e-tobias-na-historia.html>.
* ST. RAPHAEL’S EPISCOPAL CHURCH. All about St. Raphael the Archangel. Disponível em: <http://straphaelsparish.net/AboutAngelRaphael.htm>.
* STRACKE, R. St. Raphael the Archangel and Tobias: The Iconography. 2015. Disponível em: <https://www.christianiconography.info/raphael.html>.