“Saiba que você não pode dar um passo no caminho do espírito, até que se esforce para conquistar este feroz inimigo, que é o seu próprio julgamento.” -- O Guia Espiritual, Miguel de Molinos

Estou tirando levemente a frase de Miguel de Molinos de seu contexto original para dar início a este texto. Molinos dedica sua magnum opus a argumentar que o ser humano, em seu caminho espiritual, não é capaz de se guiar sozinho: ele precisa de um mestre. Em seus momentos de dúvida, temor, tentação, e qualquer outro sentimento negativo que se possa imaginar, segundo ele, é quase certo que você irá se perder. Eu concordo em partes.

De fato, ter um modelo a seguir, um exemplar concreto no qual possamos nos espelhar, torna muito mais fácil o processo de percorrer o caminho até atingir o ponto desejado. Mas esse “mestre” não precisa ser exatamente externo. Na verdade, essa busca por um mestre para resolver todos os problemas e apontar todos os caminhos me faz lembrar o famoso “discurso da dissolução” de Krishnamurti:

“(...) Todos vocês dependem, para sua espiritualidade, para sua felicidade, para sua iluminação, de outra pessoa; e nada obstante vocês estejam se preparando para mim por dezoito anos, quando eu digo que essas coisas são inúteis, quando eu digo que vocês devem jogá-las fora e olhar para dentro de vocês próprios para a iluminação, para a glória, para a purificação, e para a incorruptibilidade do ser, nenhum de vocês está disposto a fazê-lo. Pode haver uns poucos, mas muito, muito poucos. (...)”

Na maioria das vezes, basta apenas nos espelharmos em nosso “eu superior”, uma versão aprimorada de nós mesmos que não existe no momento atual, mas que é o resultado iminente de nossa busca pelo progresso, podendo se concretizar daqui a alguns séculos, ou apenas daqui a incontáveis eras. Mas essa versão está ali, em algum lugar do espaço-tempo ela existe.

Na psicologia junguiana, o “eu” não precisa estar acompanhado do adjetivo “superior” para descrevê-lo, pois ali ele toma a forma do arquétipo do self, cuja principal característica é a unificação e harmonização de todos os aspectos da personalidade individual, sendo por si só um estado de ser/estar mais elevado do que qualquer coisa que possamos experimentar. Isso, claro, apenas quando o self é, de fato, trabalhado pelo ser humano através de sua busca pelo autoconhecimento, tomando ciência das partes de si que se situam no inconsciente.

Cabe ainda, então, citar Carl Gustav Jung quando o mesmo escreve em A Árvore Filosófica que “não se alcança a iluminação ao se imaginar figuras de luz, mas sim ao trazer a escuridão à consciência.”

Existe uma parte de todos nós que se manifesta grande parte do tempo em nossas personalidades, mas que está completamente obscura aos nossos sentidos, muitas vezes porque nos negamos a enxergar o lado sombrio de nós mesmos. Não é por menos que Franz Bardon, em Iniciação ao Hermetismo, publicado também com o título O Caminho do Adepto, enfatiza o autoconhecimento como passo essencial para o início do progresso do magista.

O chamado “Espelho da Alma” não deve ser uma prática exclusiva daqueles que buscam trilhar o mesmo sistema mágico de Bardon, pois é uma condição essencial para suprir a necessidade do mestre que puxa a orelha do aluno e o faz corrigir seus defeitos ao longo de sua caminhada. Isso não significa que o Espelho é mais fácil, ou simplesmente um atalho. Eu até ousaria dizer que é mais difícil.

Bardon sugere que se adote um caderno onde, periodicamente, o adepto anotará suas qualidades e defeitos, lado a lado, sem negligenciar ou ser condescendente consigo mesmo em nenhum momento. A prática tem paralelo com o que o espírito de Santo Agostinho descreve na questão 919 do Livro dos Espíritos, algo comentado também no Episódio #20.2 de nosso podcast:

“Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma.”

Ele ainda adiciona:

“Aquele que, todas as noites, evocasse todas as ações que praticara durante o dia e inquirisse de si mesmo o bem ou o mal que houvera feito, rogando a Deus e ao seu anjo-da-guarda que o esclarecessem, grande força adquiriria para se aperfeiçoar.” 

Claro, esse último conselho é absolutamente essencial. De nada adianta anotar se nada será feito para que, um dia, possa se trabalhar aqueles defeitos de sua alma. Porém, sempre ressaltamos: a consciência e aceitação de nossos próprios erros e imperfeições é o primeiro passo para que tenhamos o poder de corrigi-los.